CAFÉ REPÚBLICA
ELIANE COLCHETE
1 Este blog se endereça como um protesto contra o achincalhe político a que o Brasil está sendo exposto por uma operação ainda não reconhecida nos seus efeitos e proveniência, de nada menos que redução da linguagem como dos símbolos da cultura atual ao imaginário do século XIX - anterior à República que se instaura na transição ao século XX.
2 Algo num paralelismo notável à desinstrumentalização da informação relevante à atualidade do pensamento, por ostentação no Google, bing e demais aparelhos de pesquisa, de sites que só veiculam simplismos e distorções notáveis quanto a temas axiais à cultura letrada. Isso num contexto de propaganda do regime monárquico, articulada por instâncias cujos referenciais histórico-políticos são do nível daqueles "docentes" que agindo de modo tão oposto aos colegas, os professores com informação compatível ao exercício da profissão, se votam a discursos condenatórios da filosofia com base na acusação de que os que sabemos ultra-cristãos Kant e Hegel eram satanistas. Seria bom desde já lembrar que o apoio dos USA aos monarquistas colonizadores não só no Brasil onde são associados à tfp, mas durante as guerras de descolonização afro-asiática incluem utilizar-se de forças brutas neonazistas, como informou Sam Nujoma, da Namíbia, nos anos oitenta, Cl. Julien a propósito do golpe no Irã dos anos cinquenta. Aqui via de regra tais fósseis da contra-reforma inquisitorial colonial ibérica estão relacionados a partido fascista organizado contra a lei. Escusado assinalar que algo desse tipo não era pensável há décadas na escola brasileira. Assim, como resposta aos letreiros de "cafés colonial" que agora alguns logistas tem ostentado, este é um blog que expressa a ambientação desejada do "café república", onde mesmo a nossa consideração humana aos que se consideram por razões subjetivas membros da nobreza sem pretensões de dominação política, como estávamos habituados até a Globalização, se inclui entre os requisitos do pensamento democrático.
3 Não se deve considerar que isso não é sério - no sentido do alcance social da operação da ignorância programada com seleção de canal para a necedade conspícua - visto que "elites" e especialmente jovens estão firmemente convictas de que o antigo regime, que aqui significa colonialismo europeu, é a resposta autoritária para a questão das favelas como da alteridade de gênero e etnia que as esquerdas corruptas dotaram porém não de um novo canal de expressão, transformando o político, mas sim de supressão do político por algum signo distintivo de superioridade de natureza - ao mesmo tempo que assim se eximia das responsabilidades da boa escolarização, como da conscientização dos mecanismos de representação democrática, do direito constitucional e da qualificação da mão de obra tanto como do nível de vida independente da condição individual.
4 O apartheid do idoso, que já não se praticava nos anos oitenta como época da realização das resistências anti-ditatoriais e dos inícios da rubrica da pós-modernidade, tem sido um dos resultados escandalosos. Paradoxalmente, desde o início da globalização no final dos anos noventa o planejamento urbano tem se caracterizado não apenas por orgias de obras públicas que porém não resolvem os problemas cruciais. Como também pelo fato de que a preocupação estetizante dessas obras é a de impingir um estilo desusado, de provincianização dos bairros e centros urbanos. A propaganda do colonialismo está conspícua.
5 Mas este blog focaliza a questão do feminismo, como um pivô do caráter anômalo da situação local, viso que os estereótipos oitocentistas da coisificação da mulher proliferam junto com uma nova coercitividade que distingue a tonalidade das relações sociais contra a independência subjetiva. A mulher objeto é agora a que tem por obrigação integrar o mercado de trabalho e sustentar a consumação da onerosa tecnologia micro-informática integrada à dominação da sociedade como espaço do script de câmera do business midiático. Não resta porém menos objetificada como símbolo personificado das obrigações mais do que tradicionais, até mesmo arcaicas, de tão limitadoras da mulher a objeto do desejo do homem, este reuniversalizado pelo olhar da câmera virtualmente onipresente que até já se personifica nas patrulhas de civis que atuam a fiscalização do consumismo compulsório.
6 O nível da debilidade mental imposto localmente à mídia, onde consequentemente os estereótipos proliferam ao nível de achincalhe, não serve porém como tampão à necessidade de se refletir sobre a nossa parte no rol das responsabilidades - afinal mesmo na explosão dos setores de ativismo politicamente correto dos anos oitenta até agora, nenhum "age studies" coalesceu. Enquanto que a coisificação da mulher na atual dominação info-midiática ("Globalização") transita pela marginalização e dessexualização brutal das mulheres maduras e idosas.
7 Começo pois referenciando a capa da importante publicação, aqui, do volume "feminist contentions, a philosophical exchange", com título traduzido por "debates feministas: um intercâmbio filosófico". Não se trata de criticar a tradução, mas registrar que a capa mostra um desenho - num estilo de charge de jornal oitocentista - em que vemos mulheres trajadas à século XIX, estereótipos de sufragetes, discutindo. Independente dessa apresentação insultuosa - não me parece que a capa esteja reproduzindo a publicação original, mas se estivesse seria tanto mais deplorável - já se enquadra na política cultural da internet no Brasil, pois enquanto o leitor do Inglês pode ter acesso ao conteúdo do livro grátis em pdf (London/New York, Routledge, 1995), a amostra da publicada tradução em português (São Paulo, Unesp Digital, 2018) permite ler apenas um pequeno trecho, após o que se informa autoritariamente a um "você" generalizado, que "já atingiu o limite da leitura" do livro.
8 Não obstante os problemas relativos à recolonização que caracteriza a "globalização", assim expressando-se quanto ao aspecto da política cultural, conserva-se evidentemente o valor do título referenciado, que nos traz aportes referenciais da situação da teoria feminista atual. Não um consenso que se tenha obtido num plano de atuação política, visto que de fato já faz tempo que a teoria feminista se conscientizou do seu papel conceitual não diretamente subsumível a programas de ação ou parênese de costumes. Mas tampouco um consenso da démarche pensante. Inversamente, sim, a pluralidade teórica que permite porém, numa certa região da problemática cuja temática não abrange as setorizações de etnia e status, mas se comunicam com a produção do campo teórico em geral, demarcar as posições que vem se mostrando relevantes como opções em curso na teoria feminista.
9 Minha intenção é agregar a esse campo teórico aquilo que tenho desenvolvido como geo-ego-logia, de modo que se possa reunir os potenciais da abrangência das questões das mulheres a um pensamento histórico efetivo que considero estar sendo negligenciado pela setorização qualquer em voga - não só de etnia, lgbt e classe social mas também da mulher - e que no entanto não seria o que é sem qualquer desta. Trata-se do que venho designando geo-ego-logia como estrutura da modernidade conceituada como imperialismo.
10 Meus blogs publicados na Internet, como também a palestra que realizei no Iserj (Instituto d Educação do RJ, agosto 2018) e que está em You Tube, assim como meus livros publicados (Quártica editora) tem desenvolvido a meta-crítica Geo-ego-lógica que espero agora ser de auxílio nas questões que tem sido relevantes à pluralidade teórica da teoria feminista. E já por isso que a geoegologia se posiciona como pós-moderna, e a questão da pós-modernidade tem sido um dos temas candentes na atual controvérsia feminista.
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1 Antes de qualquer explicação a propósito do termo e do significado de "geo-ego-logia", seria interessante nos acercarmos do que, por ela mesma, podemos designar "teoria internacional", inversamente a "pensamento ocidental". Aqui, contudo, a "teoria internacional" sendo aproximada pelo viés da teoria feminista, conforme extratos que podemos haurir do conteúdo do livro que estamos referenciando. 2 Um conteúdo reunindo os artigos de Seyla Benhabib, Judith Butler, Nancy Fraser e Drucila Cornell. Cada uma destas pensadoras enuncia seus questionamentos e posições mas respondem num segundo momento, às objeções que as demais puderam fazer a propósito.
3 A introdução de Linda Nicholson à controvérsia que perfaz o volume é particularmente útil para introduzir um dos temas que foram por ela arrolados como de importância na controvérsia. Esse tema porém me parece mais do que um entre os demais. É sim a meu ver aquele que deveria situar a "teoria internacional", como um questionamento que acima da opção entre ser historicizado ou filosófico-universal, ou independente de qual seja o que ataca ou defende, pretende representar ou negar, se expressa uma auto-reflexão na linguagem.
4 Segundo Nicholson, Judith Butler tornou-se questionada por sua asserção de que o uso dos performativos na linguagem, ou "o aspecto performativo da linguagem", permite distinguir a formação específica do gênero da formação mais geral do Sujeito.
5 Entre as objeções que se levantaram, a que destaco na qualidade de axial ao encaminhamento teórico mesmo, uma vez que subentende a questão da própria possibilidade da linguagem situada, é a que Nicholson assim enuncia. Conforme Butler, "as the performative aspect of language constitutes subjects, so it also reconstitutes or resignifies that which had been constituted and in such resignification agency lies". Assim estaria Butler respondendo à indagação de Benhabib a propósito de como relaciona individualização e socialização, sendo porém que ao ver de Benhabib é um modo claramente determinista.
6 Para Nicholson, porém, não há na resposta de Butler "means to distinguish or explain those instances of performativity which generate new kinds of significations from those which are merely repetitions of previous performative acts" (p. 10, 11).
7 Eu gostaria de unir o tema assim destacado, como crítica a Butler enquanto não passível de estabelecer especificação de performatividade variante ou repetitiva, como tema da identidade e diferença na linguagem enquanto oposição homóloga à de sociedade e sujeito, à espirituosa injunção de Nicholson, que endereça ao leitor mesmo a tarefa de formar seu próprio conceito a propósito de "sobre o que o livro é". Pois ela mesma assim responde, irrefletidamente, ao que supôs não poder ser respondido, a saber, a indagação de qual meio permitiria opor a performatividade variante (do sujeito) ou repetitiva (da sociedade).
8 Os leitores não podem contar com uma concepção prévia, uma fórmula repetitível, que falsearia a posição mesma da performatividade teórica: "dokemoi", desde os gregos, "assim me parece"; "a meu ver"; "eu creio ser demonstrável que", ou "que é o caso"... O gênero "teoria" é portanto, por mais que o que esteja tencionando seja suspender a tese da autonomia como da reflexão, um gênero auto-perspectivado que precisa colocar-se performativamente entre colocações outras que se tratou de compreender mas não concordar. Alguém que introduz uma perspectiva própria em meio às que ele mesmo situou como as que já disseram outros, uma perspectiva que em todo caso também não deriva do nada como de alguma certeza que todos os demais já poderiam partilhar além daqueles outros, pelo contrário. Quando se pode contar com a generalidade, trata-se do trivial, não do que necessita "teorizar". Sem contar com a repetição, também os leitores não está jogando numa posição zero totalizável, onde qualquer asserção seria de todo pertinente, independente de estar ou não contextualizada.
9 As citações são portanto o complemento da construção do "caso", em função de um texto pre-existente como instância de repetição, mas o que o caso seja, eis a variação que subjetivará uma leitura qualquer. A categoria da performatividade tem sido um dos esteios daquilo que poderíamos considerar um momento mais, ou ainda, atual na teoria internacional, como aquele que se estabelece após uma certa complexidade temática derivada do estruturalismo.
10 A redução estrutural da interpretação a decodificação realmente pareceu ter eliminado as questões suscitadas pela circularidade hermenêutica, e Jameson considerou este o limite a-subjetivo da pós-modernidade. Mas agora vemos que não se poderia considerar assim, visto que a questão do performativo, como das ações que se realizam pela linguagem, ou mesmo da linguagem como campo de performatividade a partir do que se vem denominando a "linguistic turn", ultrapassa a fronteira do código.
11 Não considero que nisso a teoria feminista como ramo da teoria internacional - inversamente à teoria feminista como representação de condição - esteja apenas refletindo uma mudança tendencial. Mas sim que a teoria feminista forçou em alguns aspectos num sentido que favoreceu a mudança.
12 Porém só compreenderíamos o estado atual da performatividade em termos de linguistic turn, se estivermos visando o caráter extremamente controvertido de que ela se dotou a partir da histórica polêmica Searle-Derrida, que antes desse blog, eu estava reconstituindo mas numa problematização endereçada às relações por estabelecer entre Derrida e Habermas. Isso no bojo de um problema que também é ulterior ao modo como as coisas estavam na fronteira do código e até certo momento de produção do pós-estruturalismo. Ou seja, o problema da neometafísica como um postulado que tem sido fortemente estabelecido - por exemplo em Pierre Aubenque - contra muito do que vem sendo arrolado como pós-moderno mas expressamente contra a desconstrução, o termo que se tem associado à produção de Derrida. É conveniente marcar que a exigência neometafísica como da delimitação de um campo do pensável, justamente não equaciona o que o dokemoi grego já situa, como a impossibilidade de um dominador da linguagem.
13 O enunciado da neometafísica não deixa de apelar para esse requisito como conjuração do arbítrio. Mas será que é na desconstrução derrideana que o arbítrio se acantona? Não na forma pela qual os imperialismos de direita e de esquerda, assim como as agências mass-midiáticas de que se utilizam, tem necessidade de modelos supostos ideias, imperiosamente impostos?
14 Essa questão está no certe da controvérsia das teóricas feministas que estamos observando, mas performativamente encaminhada, como a delimitação da possibilidade da teoria feminista em que se trata de alguém estabelecer asserções e assumir questionamentos. Como Nicholson colocou, enquanto Benhabib "asserts the need for a notion of philosophy going beyond situated social criticism", Fraser faz notar o quão problemática é a atribuição do propriamente filosófico, e como o que estaria numa relação com as questões envolvendo conflitos sociais: "Consequently, if what is meant by philosophy
is an 'ahistorical, transcendent discourse claiming to articulate the criteria of validity for all other discourses,' then social criticism
without philosophy is not only possible, it is all we can aim for".
15 Mas se, também entre Benhabib e Butler o tema instala uma oposição, conforme Nicholson ela se expressa porque "Where Benhabib looks for the philosophical prerequisites to emancipatory politics, Butler questions the political effects of claims which
assert such prerequisites." Ora, segundo Nicholson, o argumento de Butler " should not be interpreted as a simple rejection of foundations, for she states that 'theory posits foundations incessantly, and forms implicit metaphysical commitments as a matter of course, even when it seeks to guard against it.' Rather it is against that theoretical move which attempts to cut off from debate the foundations it has laid down and to remove from awareness the exclusions made possible by the establishment
of those foundations."
16 Contudo, se também podemos considerar que essa é a posição de Derrida, não me parece que resolva de todo a aporia. Pois o termo "filosofia" continua de certo modo metafisicamente interpretado, como o correlato do que se considera a tarefa pertinente de fornecer a definição universal do que significa, quando na verdade a história da filosofia é a história das desapropriações e recriações desse significado.
17 Mas assim, nesse situamento de um jogo entre o movente e o estacionário, sem idealizar o que previamente condiciona o outro na, e como a, linguagem, os demais temas de leitura da publicação que estamos referenciando se tornam coerentes. Tanto a questão da pós-modernidade, como, o que me parece mais uma inovação na teoria feminista que comunica uma promissora ampliação dos horizontes, ao contrário da persistência da dispersão de situamentos concretos, o foco que Nicholson enunciou visível na controvérsia das teóricas feministas visadas, entre a questão do sujeito e a temática do inconsciente.
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a) 1 Uma vez que os USA se colocam como persistentes inimigos do Brasil independente como de todo terceiro mundo, utilizando o business de mídia - principalmente o setor de entretenimento comercial, como letras de música ou filme - para lavagem cerebral fascista, portanto não refletindo nenhuma produção estética conceitualmente definível, apenas repetindo incessantemente a mesma mensagem propagandística do politiqueiro corrupto favorito da Cia, fazendo diferenciação da população local com programação repetitiva que alça a ignorância, brutalidade ou qualquer tipo de necedade a herói, e qualquer informação - na forma ou no conteúdo - que não tenha sido ouvida antes pelo ignorante, anátema para quem expressa (não obstante o ignorante estar sempre alardeando ter feito "pela primeira vez" o que todo mundo já conhece há séculos, e a expressão informativa podendo ter sido feita até em pc ofline que não entra na Internet, porque no Brasil a globalização vandalizou toda privacidade pensável, assim como em conversas privadas, onde o ignorante sempre acha de se meter, até mesmo com aparelhos de escuta clandestina quando estamos dentro das nossa casas, etc.), seria bom que a teoria feminista assim como o designado Antifa se mostrasse consciente do mundo em que vivemos como um mundo geopoliticamente definido pelo neoimperialismo, a recolonização-neoescravista designada globalização. A propósito qualquer oportunidade deve servir à denúncia de que ao contrário de redemocratização após a ditadura militar, está havendo muito mais repressão, com abuso da população, roubo direto, desrespeito de todos os direitos humanos cabíveis, pela máfia associada do governo corrupto com as multinacionais que privatizaram os serviços básicos e os setores estratégicos do país - tudo o que tem se caracterizado desde a globalização (1997) até agora.
O programa de rádio fascista que obrigava por lei a todos a ouvirem notícias de Brasília entre 19 e 20 h. à noite, durante a ditadura, com todas as emissoras sendo obrigadas a transmitir o mesmo programa de notícias oficiais, agora está aumentado para até às 22h. Porém nesse "novo" formato, resta uma emissora que transmite música... norte-americana, somente daquelas cuja letra já sabemos que nome vai falar e que nome vai vituperar - visto que não faz elogio de ninguém que não sirva à vituperação de alguem, usando até material da produção escrita roubado ao sujeito mesmo vituperado? O sexismo é a regra da propaganda norte-americana. A mensagem é que tal nome - que a população tratada como gado deve assimilar como de preferência dos poderosos - se associa imaginariamente a financiamento ou a que o país é algum território do big-brother norte-americano. A noção de população como o referencial do país, Estado e governo, não subsiste. "Quem" se beneficia são aqueles que estão recebendo as migalhas do banquete do preferido da máfia norte-americana suposta demagogicamente estar nomeando "quem" seria a cor local. Não obstante a propaganda mentirosa, como a nebulosa fabricação de romances fantasiados, está claro que ninguém esclarecido acredita na vinculação de verbas à simpatia pela fulana de tal. Mas quem resta "esclarecido" num país cujo governo à esquerda e à direita se organiza contra a cultura letrada, porque todo politiqueiro visa a mídia como porta-voz do seu programa assinado coerente com os ditames da Cia assim subentendido conforme a aposição da letra "d" da lavagem cerebral?
2 Mas não só, bem inversamente, não há estudos que se referenciar a propósito, de modo que se estivesse bem consciente do fato de que qualquer poder do capitalismo fascista no "centro" ou primeiro mundo só reúne o montante necessário de financiamento das operações sórdidas com o que arrecada numa exploração da magnitude do imperialismo na "margem". Não só a consciência de que se não se acabar com o neoimperialismo no terceiro mundo, protagonizado pelo capital neo-nazi-fascista que patrocina políticos corruptos à direita e à esquerda, não lhes importa, não haverá mudança em qualquer lugar do planeta excetuando que se acentuará cada vez mais as criminosas operações anti-democráticas; como também o crescimento do "politicamente correto" ou do "Antifa" desde os anos oitenta até agora apenas tem se caracterizado pelo retrocesso na conscientização quanto a vários itens assinaláveis, pelo que se pode mostrar destacando a terminologia que tem se tornado recorrente.
3 Linda Nicholson tornou bem expresso o fato de que a controvérsia apresentada no texto que estamos examinando não se propõe uma antologia da produção feminista, visto que "In 1995, for a collection of essays and responses written by four white women from the United States who come out of a certain tradition within a particular discipline to claim to represent
"feminist theory" would represent a kind of arrogance each of these women would vehemently reject.". Esta é uma observação certamente necessária, porém eu gostaria de salientar o uso do termo "white" para designar as escritoras que comparecem nesse estudo, como um termo que certa expectativa coerente a crítica do racismo já conhecida, já não consideraria esperável. Visto que como René Depestre observou há algumas décadas, os termos "negro" ou "branco" introduzidos com a colonização desde 1500, deveriam ser, eles sim, considerados produto do surrealismo.
4 Conforme Depestre, a “mágica semântica” no sentido desse fantasioso não começa por ser uma invenção dos artistas surrealistas do Haiti, e sim dos europeus que empregam um termo único, “negro”, para abranger loucamente “os Ibos, Bangaras, Mandingos, Peules, Aradas e outros povos africanos que foram literalmente despojados de sua identidade”. Mas que entender do – prestigiosamente auto-referido – termo, “branco”, que recobre as “etnias espanhola, inglesa, francesa, portuguesa e holandesa” , que partilhavam as Américas, senão que é “mais uma denominação genérica, tirada de um passe de mágica, como um coelho do chapéu...
“Em consequência,
o efervescer do sangue nessa região veio a criar uma legião de
mulatos, mestiços, quarterões, oitavões e muitos outros que se
vieram juntar aos já inventados índios, negros e brancos, para dar
origem, no infortúnio e na fantasia, a uma incrível gama de
conflitos e cores...daí em diante
é impossível dissociar a aventura histórica do Haiti de uma
espécie de surrealismo popular e barroco.”
5 O Haiti nesse contexto é um referencial dos procedimentos da colonização, não uma marca de originalidade. Pelo contrário, Depestre também notou que a originalidade, não no sentido idealista de criações vindas do nada, mas sim no sentido da cultura produzida pelos haitianos não conhecida alhures, estava de todo recalcada na contingência da importação cultural restrita a cópia do Centro.
6 Atualmente o plano da ignorância no Brasil globalizado para recolonização abrange nas universidades a obrigatoriedade dos alunos só fazerem paráfrase de textos de teóricos internacionais - mesmo antes da Globalização a universidade só cobre teóricos do primeiro mundo, portanto não brasileiros, com exceção para o interregno entre os anos setenta e oitenta, quando houve engajamento na liberação do pensamento local. Atualmente portanto dentro da universidade ninguém neste país pode produzir textos vinculando opiniões próprias que contextualizem o conteúdo na realidade local - à direita porém estando corrente a produção de Olavo de Carvalho que porém mora nos USA e se restringe a porta-voz da contra-reforma. Nas escolas de nível básico desde o primário aporta-se hoje ao cúmulo de substituir a interpretação de textos e a produção redacional -evidentemente modalidade não literária - pela ordem de "fazer" igual ao modelo, sendo apresentado como modelo trovas e sonetos, valendo nota.
6 Atualmente o plano da ignorância no Brasil globalizado para recolonização abrange nas universidades a obrigatoriedade dos alunos só fazerem paráfrase de textos de teóricos internacionais - mesmo antes da Globalização a universidade só cobre teóricos do primeiro mundo, portanto não brasileiros, com exceção para o interregno entre os anos setenta e oitenta, quando houve engajamento na liberação do pensamento local. Atualmente portanto dentro da universidade ninguém neste país pode produzir textos vinculando opiniões próprias que contextualizem o conteúdo na realidade local - à direita porém estando corrente a produção de Olavo de Carvalho que porém mora nos USA e se restringe a porta-voz da contra-reforma. Nas escolas de nível básico desde o primário aporta-se hoje ao cúmulo de substituir a interpretação de textos e a produção redacional -evidentemente modalidade não literária - pela ordem de "fazer" igual ao modelo, sendo apresentado como modelo trovas e sonetos, valendo nota.
6 Quanto à questão terminológica "racial", quando até mesmo a genética atual a desqualifica posto que só existem combinações, assim a nacionalidade das escritoras referenciadas no texto que estamos examinando nem sequer foi pensada como o que realmente traria alguma informação da proveniência cultural delas. Os USA parecem ter sido imaginado como o conjunto universo cujas diferenciações internas, elas mesmas já sobredeterminadas pela ideologia da assimilação, seriam exemplares para quaisquer determinação geopolítica, o que está longe de corresponder aos fatos. O termo "negro" não nos diz nada, mesmo se o referencial for os USA, uma vez que não acreditamos que todo representante de um fenótipo sejam uma só pessoa, uma só identidade que falaria uma só palavra, etc. Nem parece que foi isso que os movimentos anti-racistas ou a Teoria Feminista quiseram fazer crer.
7 Uma visada na internet a propósito das escritoras feministas na França e na Alemanha trouxe alguns aportes interessantes, mesmo se com escassa informação relevante. A questão mais importante a meu ver, que é a relação enunciativa, a pesquisa e problematização da linguagem, tornou-se expressa entre as alemãs, comoVerena Stefan e Ingebor Bachmann, esta que tinfluencia a própria Crista Wolff, alçada a ícone do pós-modernismo literário por Linda Hutcheon. Entre as posições opostas da já célebre Alice Schwarzer e Anne Wizorek, o feminismo se posiciona quanto à política dos refugiados de Angela Merkel. Schwarzer culpou diretamente os refugiados islâmicos, norte-africanos e outros, pelo massacre coletivo de mulheres que ocorreu em Colônia há quatro anos atrás, enquanto Anne Wizorek recusou a acusação de Schwarzer, que ao que parece não chegou a ser provada, como também a produção feminista dela como pertinente ao seu próprio percurso.
8 Enquanto nos USA a pesquisa da linguagem como locus feminista está nitidamente recalcada pelo massivo narrativismo como perspectiva autoritária não só da língua, a partir da influência de Paul de Mann e - a meu ver algo indevidamente interpretado - de Derrida. Mas também do que seria uma pressuposta psique feminina congenitamente narrativa, defendida por Carol Gilligan e Seyla Benhabib no artigo desta intitulado "O outro generalizado e o Outro concreto: a controvérsia Kohlberg-Gilligan e a teoria feminista". O artigo está inserto no volume "feminismo como crítica da modernidade"( Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1987), reunindo textos das cinco escritoras que aqui estamos examinando - a internet não informa a nacionalidade delas, não obstante Benhabib e Butler serem já conhecidas, mas parece que todas as cinco são expoentes da universidade norte-americana - e também de Iris Young, Maria Markus, o algo reacionário Isaac Balbus, e Adam Thurschwell que escreve em parceria com Drucilla Cornell. Seria interessante acrescentar que sendo Butler internacionalmente célebre na produção política pensante pela criação da Queer theory, não conheço os movimentos de seus seguidores entre nós, enquanto que de Benhabib conheço adeptos, se bem que não tanto na teoria feminista, mas entre os habermasianos que por aqui, na Globalização, tem tido grande destaque como seguidores da atual Teoria Crítica, inicialmente de Benjamin e Adorno, usualmente agrupada na chamada "Escola de Frankfurt". Assim em seu estudo sobre Habermas intitulado "A moralidade na democracia"( São Paulo, Perspectiva, 2012), Leonardo Avritzer afirma expressamente a influência de Benhabib.
9 Ora, quanto à crítica do narrativismo, torna-se pertinente se desde os anos dois mil temos conhecido a "textolinguística" que vem conquistando espaço na concepção da linguagem, não redutível à relação de palavras ou de frases, mas com um conceito inerente do texto, que se torna a unidade mínima da linguagem. Paralelamente, a teoria dos gêneros e tipos de linguagem vem se provando a mais útil. Os gêneros (carta, romance, telefonema ,etc.) sendo históricos, isto é, com listagem dos usuais mutável conforme a época, os tipos seriam estruturalmente articulações da própria intenção da fala. O que um tipo - como narrativa, injunção, dissertação, descrição, explicação (ou "exposição")- tipifica sendo um gênero, mas não porque seria o único que o gênero comporta. Uma variação tipológica é encontrável em qualquer gênero por mais característico que pareça. A narrativa não sendo obviamente algum Ur-tipe, mas também não o injuntivo (imperativo) como pensavam os estruturalistas ou o dissertativo (argumentativo) da ética do discurso universalista de Habermas e Apel. O nouveau roman se esmerou na monopolização descritiva objetiva da língua, o que se revelou operante na perspectiva da linguagem do romance, mas limitador demais de modo que se pudesse esperar por opções.
10 O pós-modernismo tem se mostrado constante naquilo que seria uma modalidade de narrativa que desnuda as próprias condições de construção. Várias tentativas de designar a essa modalidade tem sido propostas como a "meta-ficção historiográfica" de Linda Hutcheon, ou a "narrativa narcisista" de Christine Brooke-Rose. Parece-me que de fato aquilo de que se trata deveria ser designado algo já conhecido como anti-narrativa - praticada por exemplo no gênero que desde o Romantismo se pratica como o tema fantástico do duplo, um sósia ou reflexo do espelho autonomizado que desde que aparece, passa a ser o referencial das ações atribuíveis ao personagem principal.
11 Especialmente "O Duplo" de Dostoievski revela como esse deslocamento típico do gênero, das ações do personagem ao duplo que o obseda, é um procedimento anti-narrativo, pois o "quem" está atuando já não pode ser definido - o fantástico é um gênero que não fornece a explicação do fenômeno misterioso, diferente de contos de fadas ou mitos, parapsicologia, etc., onde os seres sobrenaturais ou dons de alguém explicam o haver desses fenômenos. Em Dostoievski ocorre um trecho de não-ações características do que o personagem não está fazendo, nem o seu duplo, portanto ações que o narrador lista mas como o que ele não narrará - ações que estão acontecendo na festa no interior do castelo, onde o personagem principal não foi convidado a ir, portanto nem o duplo poderia comparecer.
12 O pós-moderno tem relações ambíguas com o romantismo, ora sendo considerado um neo-romantismo literário; ora sendo, se considerarmos pós-modernas as políticas setorizadas em gênero sexual e etnia, contrário a ele, como Henry Louis Gates antagonizando Ralph Elison por ter considerado o status marginalizado como "negro" uma duplicidade em que alguém se encontra - ele é ele mesmo mas também "o negro" que o duplica como o que a sociedade lhe atribui ser.
13 Também Homi Bhabha criticou Stephen Heath por seu personagem, que tem um nome mexicano e um nome americano conforme suas personalidades emotiva ou burocrática. Porém essa crítica não atinge a literariedade do duplo fantástico que justamente não é o que explica, nem o que é explicado, mas o que não se explica e coloca a definição no status da total estranheza. Lembrando o dito jocoso de Deleuze a propósito do Universal - que não é o que explica, mas o que precisa ser explicado, contrariamente ao que a metafísica prevê - vemos que o duplo rouba toda possibilidade do Universal pensável. Tanto a metafísica quanto a anti-metafísica. Ele é um tema que problematiza o que o Romantismo descobriu propriamente como o Sujeito pensável, pois a este situa numa trama desejante que o conduz por si mesma ao Outro.
14 Enquanto O.Rank reduzira o duplo a criação de mentes paranoico-narcísicas, e Freud apenas a representação do superego, Lacan referiu-se a Hoffman e ao duplo como um tema do objeto "a", o objeto parcial do desejo relativo seja ao ouvir ou ao ver ou ao oral, anal e genital. Realmente há uma parcialidade notável no desejo do duplicado, porém é duvidoso que enquanto o outro relativo ao mesmo, o desejado seja um dos objeto a de Lacan, visto que pode, como em Dostoievski, relacionar-se a um status social que o subalterno sente ao mesmo tempo merecido e negado a si, um sentimento que na trama social só pode aflorar na base de ações neuróticas, de que o duplo se mofa como atuante perfeito, mas não próprio. Na verdade como mostrei em meu estudo sobre o tema (em blog na internet "o romantismo, el doble e o fantástico", mas está sabotado de modo que só está legível a parte inicial expondo Rank, que o texto restante se esmerava em criticar entre exposições de outros autores também criticados e minha perspectiva conceituada), o que se deveria fazer de modo a não produzir uma mistificação conceitual, é referenciar o pós-kantismo e todo cenário pensante romanticista, inclusive a psicologia de Biran, como um pensamento do sujeito que tinha obrigatoriamente uma concepção do duplo, visto que o homem estava sendo conceituado como duplo em vários aspectos inclusive já havendo o inconsciente (memória à Carus, Entausserung à Hegel, cultura à Schubert). Assim não havia apenas um conceito do duplo mas cada pensador formulava o seu, enquanto na música e nas artes o tema era explorado, e a época só poderia se entender em torno dessa concepção. Já como um gênero literário, o duplo fantástico pode não ser apenas o reflexo do misticismo na literatura - que na época era também influente na filosofia e até mesmo na ciência porque o eletromagnetismo e a evolução causaram a ruptura relativamente à ciência aufklaerung. E sim um efeito da materialidade ou autonomia literária, implicando um questionamento pertinente à especificidade de gênero textual. A propósito, hoje seria importante notar que a autonomia do gênero tem mais abrangência do que apenas a predominância do tipo poderia fazer supor. Todos os textos científicos, tese, artigo, etc., são gêneros expositivos, mas é nítido que cada ciência tem um encaminhamento próprio de exposição. Não há uma linguística neutra que pudesse legislar sobre a correção "lógica" independente da história da disciplina.
15 O deslocamento entre status e adequação ativa é portanto, pelo que vimos acima, um tema da marginalização que o pós-modernismo aprofunda, não podendo ser narrativizado justamente por que a marginalidade é a frustração do laço de propriedade do sujeito ao seu ato - como o preconceito aristotélico faz ver, ao negar que o pobre possa ser magnânimo, pois se ele tentar se mostrará mesquinho. Ao contrário do que Aristóteles supõe, nem sempre é uma questão de opção inversamente ao dever-ser, como na coesão social forçada que para alguns define a situação da sociedade colonizada, etc.
16 Também o pós-modernismo é anti-narrativo por desconstruir as outras categorias inerentes ao discurso da propriedade, como o uso irrefletido dos pronomes pessoais. A narratividade é um tema aristotélico, importado como tal ao presente por Hannah Arendt, de quem ao que parece o feminismo o herdou abstraindo contudo a proveniência antiga. Aos desdobramentos limitantes do narrativismo norte-americano atual deveremos conceituar mais à frente.
17 Na França, minha pesquisa na internet sobre escritoras atuais, revelou um destaque compreensível para as referências ao movimento feminista que situam-se conforme a uma perspectiva histórica, privilegiando o maio de 68 como núcleo formativo ou de aglutinação do movimento na forma atual. A questão é pois tanto entender como o maio de 68 catalisou o movimento feminista contemporâneo, como também o que ocorre desde então até agora em termos de rupturas ou continuidades proponíveis. 18 A revista Tel Quel, de fato, na década de 70 (2º trimestre 1974), na seção "luttes de femmes" (pg. 93 a 102) informava que o "movimento pela liberação das mulheres" deriva do maio de 68", porém aparentemente sendo "um dos raros, senão o único ramo dessa conflagração (le seul issu de cet embrasement) que não cedeu perante as diferentes crises, política, econômica, ideológica". Bem inversamente, o movimento das mulheres desde maio de 68 logrou alcançar "a escala de massa", e "reflexões interessantes sobre o papel das mulheres na sociedade e sobre sua ideologia tem sido elaboradas em conexão com Freud e Marx". Estes dois referenciais porém estavam sobredeterminados pelo foco psicanalítico, onde a relação com o marxismo parece estabelecer-se pelo viés de Althusser e seu conceito de "aparelhos ideológicos de Estado" que como instâncias socialmente constitutivas a exemplo da família, religião, escola, etc., integrariam a reprodução do capitalismo.
19 A "reprodução" como instâncias fixadoras da ideologia tal que as posições socialmente hierarquizadas eram garantidas pelos processos mesmos de identificação social dos sujeitos, sendo tão estrutural ao capitalismo como a produção econômica que se manteria "em ultima instância" como determinante porém não de modo causalmente independente da ideologia. A Tel Quel posiciona aí as mulheres como pivô decisório - a instância determinante à Althusser - mas da reprodução biológica, o que evidentemente subentende o AIE familiar althusseriano.
20 Mas assim, ao invés de uma programática ou de uma posição já decidida da mulher, a Tel Quel coloca algumas questões. Se as mulheres podem ser consideradas algo mais que ou "um simples suporte do status quo social" ou o marginalizado e o oprimido da sociedade. E se, inversamente a essa alternativa, elas podem ser consideradas em termos de jouissance, o termo lacaniano conceitualmente intraduzível para algo como a subjetividade em devir como instância da fruição. Assim a indagação pertinente sendo a propósito da "jouissance feminina - relação ao discurso, à lei, ao corpo", como o possivelmente irredutível ao papel do status quo.
21 Não se falou ali de Simone de Beauvoir, a lendária feminista da metade inicial, existencialista, do século XX, de quem Judith Butler se celebrizou por polemizar o dito proverbial ("não se nasce mulher, torna-se mulher"). As entrevistas com Marguerite Duras e Julia Kristeva na Tel Quel são bastante instrutivas sobre o movimento francês, havendo alusão valorizadora a Monique Wittig, que Butler criticou no mesmo rol de recusa à posição de Beauvoir que ela considerou cartesiana por objetivar teleologicamente o devir. Duras focalizou o tema da escritura como essencialmente feminina, se uma escritura que se possa considerar por esse termo. O que transgride o pacto da ideologia, rasura a linguagem masculina, e por isso resulta em quem escreve numa sensação de temor, como deve provir da verdadeira escritura como o que é vedado ao homem. Este só "escreve" como o porta-voz da ideologia, tendo um interesse conspícuo por teorizar sobre a escrita feminina para produzir a propósito dela a "imbecilidade teórica" como ato de legislar ou dominar.
22 A questão da escrita de mulheres é importante nesse número da Tel Quel, havendo certa convergência em torno de temas como a recusa do nome do pai, que no entanto pode resultar num início em que o nome escolhido pela escritora seja masculino como George Sand e Daniel Stern (Marie d'Agoult). Em todo caso, "as mulheres não tem nome próprio", a consciência da precariedade do nome sendo uma experiência relativamente comum de mulheres - que não foram crianças na positividade, segundo Duras, ou que só tem como nome "o olho do Cíclope" como na poesia de Wittig. A transgressão da sintaxe, à Duras, que em Monique Wittig ("Les guérillières") aparece como a exploração das lacunas que a linguagem dominadora do homem não pode preencher. Ao contrário, a plenitude da palavra, que ninguém, homem ou mulher, pode evitar, sendo a organização anti-feminina da ideologia.
23 Hoje esse tema poderia muito oportunamente ser ampliado para uma nova resistência ideológica da língua automatizada pelo personal computer de programa capitalista massificado, dirigido sem dúvida contra a facilidade da escrita, sendo fabricado com várias disfunções que obviamente restringem a escrita pessoal para canalizar o uso à reprodução da fala ideologicamente midiatizada, ao cerceamento identitário, à falsificações e anacronismos pseudo-informativos, aos instintos agressivos, ao sexismo glorificado, etc.
23 Em Nathallie Sarraut - a escritora referencial do Nouveau Roman a mesmo título que Robbe-Grillet, mas que Lucien Goldman julgou ao contrário deste apenas representante da mentalidade anterior à da objetividade a-subjetiva típica do capitalismo tardio ou monopolista - o tema das lacunas da linguagem é o mesmo que o de Wittig conforme a Tel Quel, constatando-o pela exploração na escrita de Sarraut, de "'tropismos', informes, tremidos, inatingíveis, moventes que a linguagem literária tenta recalcar (écraser) e reconduzir à ordem". Há uma concordância tácita em torno do axioma de Duras sobre que entre os homens só um louco atinge o nível da escritura feminina como axiomaticamente transgressiva da forma.
24 Essa escritura de rupturas, vazios ou brancos, conforme Julia Kristeva na entrevista a Tel Quel, é porém o que Lautréamont e Mallarmé, na introdução do modernismo, teriam trazido, como "a música nas letras" na expressão deste. Eu poderia a propósito internalizar essa ambiguidade, entre o status feminino ou histórico-literário da transgressão formal, pois de fato, em meus inícios como escritora engajada na literatura, depois da fase adolescente dos "diários" descompromissados, certamente experimentei o descentramento nominal e identitário.
25 Na verdade mesmo quando escrevia diários o sentia, visto que eu tinha consciência de escrever não como se reportasse fatos como o que hoje eu poderia classificar em termos de narradora onisciente, mas inversamente, eu tinha vontade de escrever sobre a parte dos fatos que eu não considerava totalmente compreensíveis, não porque não soubesse o que se devia pensar a propósito do comezinho, mas porque à escritura o fato emergia como opacidade, era como se eu lembrasse dessa opacidade que na linguagem comum, falada, restava imperativamente oculta.
26 Mas no começo dos anos noventa, quando o engajamento ocorreu como noção de "produção" literária, a partir do meu relacionamento com meu marido, o escritor Luis Carlos de Morais Junior, meu curso de filosofia onde ocorreu minha convergência com o pós-estruturalismo (bem antes de eu travar conhecimento com o pós-moderno, em meios daquela década), e vivências de marginalizados mais o fato de termos ido na época morar juntos numa ilha praticamente deserta na perspectiva cultural onde ele lecionou na escola pública, já vindo eu da descoberta da vanguarda tive experiências como as que encontrei referenciadas na entrevista de Duras, que afirmou considerar-se na França uma clandestina. É curioso, pois fiz naquela época, sem conhecer Duras, vinte anos depois dela, do termo "clandestinidade" o núcleo da minha nova experiência de escrever, relacionada agora não só ao "desbunde" como à estranheza das condições como uma assunção inesperada da ausência total dos pressupostos, não apenas meio lá meio cá em relação aos fatos como cognoscíveis ou opacos, e principalmente à estranheza da linguagem, que sempre quisera fazer crer não deixar nada de fora de si, mas agora parecia singularmente sem procedimentos adequados ao pensamento. Assim isso jamais significando uma descoberta da impotência da linguagem, mas ao contrário, da impotência do modo pelo qual a linguagem é cerceada ideologicamente, tanto como da escrita como essa região de produção da linguagem, em conexão com a transformação do pensamento, a partir dela mesma consistir em algo mais do que o cerceamento discursivo da ideologia identitária, entre as fantasias da reprovação destrutiva e da entronização da Cinderela, característica das opções únicas do cotidiano.
27 Assim se esta foi uma descoberta da feminilidade ou relacionada a influências literárias e conceituais, torna-se algo que não seria muito fácil decidir, mesmo sendo claro que não havia ainda uma rubrica feminista propriamente.
28 Conforme Kristeva, que segundo a Internet é casada com Ph. Sollers, escritor da vanguarda que tem um texto nesse número da Tel Quel, intitulado "Paradis", a indecidibilidade porta sobre o caráter processual, não fixado, da oposição de gênero em feminino e masculino. O que mais comodamente permite situar a vanguarda numa posição não-fálica, ao contrário da que caracteriza uma cultura do sujeito falante como mestre dos seus ditos. Pois assim o perigo que os enunciados que até aí reportamos induziria, de serem considerados apenas pré-genitais, perversos nesse sentido, se conjura. Porém a confrontação da posição não-fálica como da escrita, à posição fálica da ideologia, pode ser para atravessá-la ou para negá-la. A travessia do significante implicaria uma posição não-fálica naquele sentido de não fixada, em processo. A simples negação da posição fálica, ao contrário, constitui "um abrigo fetichista para fugir da castração", Kristeva reservando assim só a "grandes realizações literárias" a opção pela travessia, e pois a oposição ("diferenciação") de gêneros - esta que é o correlato da "castração" psicanalítica, o momento em que a criança compreende que o sexo da mãe é irredutível ao do pai, se a criança realmente acede a isso que habilita a competência intelectual da objetividade mesma.
29 Ora, Kristeva constitui assim uma posição do "sujeito da escritura" como aquele que expressa uma "verdade própria a todo sujeito", a qual é porém interdita à linguagem comum pelas "necessidades da produção e da reprodução". Essa verdade é pois da bi-sexualidade como infixação do processo de diferenciação sexual.
30 Portanto o sujeito da escritura que realmente atravessa a posição fálica sem negá-la, mas compreendendo a oposição sexual não a reduz ideologicamente ao binarismo identitário, permanecendo assim livre em seu devir, não se restringe às mulheres, mas seria abrangente dessa exploração das virtualidades da língua que se designa escritura. A exploração da linguagem é um efeito do devir, visto que a objetividade do sujeito que assumiu o significante como travessia posiciona o sentido na multiplicidade, na relação, ao contrário da substância inamovível. O sentido que a linguagem expressa é ele mesmo polissêmico, múltiplo, reversivo da fixação ideológica. Quanto à escrita das mulheres, para Kristeva ocorre primeiro que devêssemos considerar o que referenciamos nesse status. A seu ver, mulher é uma posição que a ideologia atribui à joussance mesma, "essa aparição do não-senso que multiplica os sentidos... contanto que não se fale nisso". Efetivamente conforme Lacan a mulher é o outsider da linguagem como do "simbólico", a objetividade mesma já operante como se irredutível ao "imaginário". A jouissance identitariamente feminilizada se reduz portanto ao não-sério, ao pré-científico conforme Kristeva. Ou como poderíamos ajuntar, ao "lar das emoções", conforme a expressão crítica de Agnes Heller, segundo a internet da "escola de Budapeste", ramo do marxismo lukacsiano na "Teoria Crítica", a que também pertence Gyorgy Markus, casado com Maria Márkus. Porém sendo a expressão lar das emoções a que as feministas nos USA consagraram e tem incessantemente denunciado como Heller, a instância que a ideologia atribui oposta de todo à pertinência masculina do Poder, como do político, do mundo do trabalho e da racionalidade, para mostrar que inversamente é permeada de relações políticas a exemplo do recalcamento das mulheres que a divisão mesma do lar e do trabalho performatiza.
31 Ao ver de Kristeva, contudo, bem inversamente a algumas considerações oriundas desse ramo do feminismo norte-americano e teórico-crítico, a jouissance ideológico-identitariamente feminilizada implica que o escritor e a literatura sejam considerados femininos. São as mulheres que escrevem na acomodação ideológica das atividades, por essa razão estrutural, de que as mulheres tendem a interiorizar a diferenciação sexual como prática de todo sujeito. Reproduzindo assim o binarismo do gênero ideológico-identitário, resta a opção. Ou a mulher se viriliza, como tendência "a valorizar a dominante fálica", de modo a investir-se de um papel de mestre, a partir da fixação da relação de pai e filha, dotando-se de atitudes professoral, metafísica - assim delimitando as possibilidades da filosofia - dogmático-científica, militante revolucionária, etc. Ou ocorre escolher a negação da posição fálica, o refúgio na valorização do corpo a-histórico, mudo, das sensações puramente interiores, etc. - o que poderia parecer uma crítica a certas perspectivas da literatura existencialista de Sartre e Camus, que Robbe Grillet tanto criticou como metafórica, recusante da objetividade.
32 Porém de modo algo surpreendente, para Kristeva se as mulheres tem um papel no processo em curso da história, seria por assumir uma função negativa, como recusa de tudo que é definido, assim como da provisão do sentido fixista já dado na sociedade. Mas se assim elas se tornam convenientes à opção revolucionária, logo revelam a tendência oposta de servir de bastião aos poderes estabelecidos socialmente, devido ao seu potencial de decisão sobre a procriação que implica que se identifiquem com o poder que antes rejeitaram.
33 Quanto à experiência efetiva das mulheres que escrevem, Kristeva se mostra algo indevidamente generalizadora, a meu ver, considerando ela que há uma constante da escrita feminina como narrativa da história familiar ou ficionalização visando a reconstitui a identidade. Não creio que essa atribuição seja muito atual, mas ela considera assim que se as mulheres não chegam à desconstrução da langue praticada por um Joyce, mas só a estados de suspensão ou de estesias à Virginia Wolf - também Kristeva na sua biografia de Hanna Arendt julgou haver uma incompatibilidade do feminino com o experimentalismo da linguagem não só literária mas também filosófica ou conceitual - poderia citar uma escritora, Sophie Podolski, que a surpreendeu por apresentar uma mutação. Kristeva relacionou essa mudança efetivada por Podolski à pesquisa da linguagem estrutural ligada a questões históricas e políticas de sua época. Representaria a relação já conspícua da vanguarda com o underground, mas para Kristeva apenas a escritora referenciada, como mulher, expressa essa conjunção. A meu ver poderia restar aí abrangência nada pequena das controvérsias internas à própria vanguarda, pois entre o simbolismo bem pensante de um Mallarmé, ou seu reverso nos Cantos de Maldoror à Lautreamont, e posicionamentos política e existencialmente transgressivos como de Artaud, há muito para pensar em termos do significado da Vanguarda.
34 Em todo caso, a valorização de Podolski em Kristeva se expressa como de alguém que em sua experiência social, simbólica e sexual fez do "fato de ser mulher" apenas uma oportunidade para tornar-se algo mais, "um sujeito em processo".
35 Para Drucilla Cornell e Adam Thurschwell, a negatividade da mulher como tema kristeviano, pelo que ocorre negação lacaniana do "ser" à condição feminina - eles citam Kristeva: "em nível mais profundo, porém, uma mulher não pode 'ser'; é algo que nem mesmo pertence à ordem do ser..." - é ambígua nisso pelo que, por vezes "há um resvalamento no discurso de Kristeva que pode ser interpretado como uma tentativa de identificar o feminino com o 'significado' de ser mulher". Isso, numa transição do feminino lacaniano como Outro reprimido no simbólico masculino, assim tornando-se a mulher potencialmente revolucionária por natureza e o gênero, destino. Observam assim que "não há conexão óbvia" entre o conceito de Mulher como lacanianamente "o reprimido em todos os sujeitos falantes", e "as mulheres empíricas que serão as ativistas políticas". ("Feminismo, negatividade, intersubjetividade", in "feminismo como crítica da modernidade", op. cit. p. 155 e ss.)
36 Quanto à parte inicial do argumento, a propósito da oscilação entre o ser e o não-ser, poderia ser colocado que na teoria estruturalista o inconsciente funciona como uma linguagem, e na linguística estrutural a forma da oposição não se reduz a duas presenças diferentes mas se perfaz entre a ausência e presença. O singular não tem marca alguma distintiva, mas é oposto ao plural marcado pelo "s". O fonema zero que posiciona o singular - como a mulher impensável no inconsciente por definição pré-castração, à Lacan - é portanto o conceito estruturalista do que se opõe positivamente a algo porém só ele marcado por uma presença. A ambiguidade é pois do próprio inconsciente/consciente, entre o não-ser e o ser.
37 Mas de fato Kristeva é ambígua por isso que sua posição não se restringiu ao estruturalismo de modelo linguístico, mas avançou ao pós-estruturalismo de modelo semiótico. Alhures (texto de xerox) ela mesma assinala o que opõe o simbólico e o semiótico, ao que parece oposição que ela deriva de Freud como porém um corretivo da psicanálise quanto aos pesos de valoração. O simbólico abrange a ordem do signo: nominação, sintaxe, significação, sentido, denotação, verdade, ciência, autoridade patriarcal - o que não só aqui, para Kristeva, é o que Freud falha ao privilegiar, mas na Tel Quel é o que demarca a "escuta da linguagem" de que Podolski é elogiada por ter feito, como "do seu tecido fonético, de sua articulação lógica". Naquele texto, o semiótico abrange o que é transversal e anterior ao simbólico: cora platônica, ritmo pré-socrático, jogo de palavras, não-senso, a fala do outro, o descentramento que a prática da linguagem por sua interatividade impõe como antítese à tese da linguagem enquanto pura positividade de sentido assim como o vazio oposto ao cheio, o materno, o feminino. Kristeva aí localiza o simbólico como pólo de dominação política desde Platão, pela sua vontade de negação do pólo semiótico, ambos oponíveis assim como as linguagens do pai e da mãe.
38 Também a tese de que a mãe não é a mulher antes da castração parece ambígua relativamente ao fato do complexo de Édipo que interpõe o pai como oposto da simbiose criança-mãe não ser exatamente coextensivo à castração, mas anterior. Não obstante para Lacan a ausência da mãe ser algo primário na psique visto conceber a origem arcaica do ego no complexo do desmame, quando o seio é trocado pela mamadeira e o alimento sólido. E em todo caso Kristeva prossegue a centragem na castração sem referenciar o fato de que na menina o que ocorre é a "inveja do pênis". Já na biografia de Melanie Klein que produziu, Kristeva se torna pensadora da corrente que tem relacionado a vocação politicamente democrática à "posição depressiva", oposta à posição paranoide despótica. Assim em conjunção a demais aspectos do inconsciente kleiniano que privilegia a relação da criança com o seio da mãe (inveja do seio, cisão do seio bom e mau) e nossas capacidades de internalização do feminino (algo complexo de entender já que subentende uma fase de anulação da mãe na psique infantil), demarcando uma vertente kleiniana na teoria feminista.
39 Independente da ambiguidade própria à jouissance entre o semiótico e o simbólico, como entre ausência e presença, inconsciente e consciente, realmente pode-se considerar pertinente a crítica de Cornell e Thurschwell a Kristeva, a propósito da inconsistência da relação do feminino, entre o estrutural inconsciente e o empírico político. Não há muito como provar que as mulheres sejam protagonistas naturais dos movimentos revolucionários ou que elas sejam mais propensas ao terrorismo auto-destrutivo que os homens porque o terrorismo canaliza seus exacerbados sentimentos de revolta. Não há mulheres cabeças de revoluções históricas nem exércitos revolucionários que tenham dependido delas. Independente dessa questão, poderíamos considerar certo aspecto das mudanças conceituais de Kristeva em termos de fases do seu processo de produção, em torno porém de um núcleo prospectivo das relações pensáveis entre inconsciente e feminilidade. Ao que parece, esse núcleo também abrange uma constante da linguagem relacionada à vanguarda. O pós-modernismo atacou vários pressupostos modernistas, especialmente a recusa da sintaxe e do texto, sem por isso ser redutível a um retrocesso realista, como podemos observar em demonstrações de um novo experimentalismo, agora do texto inserido na história que porém vivida na estranheza da marginalização é apenas o que se precisa construir, em Linda Hutcheon ("Poética do pós-modernismo"). Mas também o alinhamento estruturalista lacan-althusseriano tem sofrido desde os anos noventa severa oposição pela Teoria Crítica. A controvérsia, que me parece um tanto confusa no estado polêmico em que persiste, tanto que abrange o pós-estruturalismo na mesma conta do oponente da teoria crítica, gira em torno da questão da subjetividade. Ao que devemos retornar, quando tratarmos das perspectivas de Seyla Benhabib confrontadas a Judith Butler, esta que tem concentrado segundo seus críticos, o ônus paradoxal de continuadora da psicanálise e do pós-estruturalismo.
40 Quanto ao feminismo francês certamente o maio de 68 é hoje considerado o referencial do movimento na forma atual. Interessante a propósito é o site de Françoise Picq, que contem artigos referenciais ao tema, como os artigo sobre a história do feminismo e sobre a relação de sociologia e movimentos feministas.
41 Localmente, isto é, aqui no Brasil, o movimento feminista tem se mostrado muito relacionado a questões sociológicas como a violência urbana e o preconceito étnico. Algo coerente com o fato de que as estatísticas apontam o femicídio como um dos fatores preponderantes da violência cometida neste país. O que excetuando casos escandalosos como o de Colônia, já não parece um assunto corrente na literatura feminista do primeiro mundo.
42 A internalização do estereótipo da brutalidade viril da mídia pela mulher, como o magá da loura loura boxer num facebook feminista, tanto parece relacionar-se a esse contexto, como à onipresença das produções do business midiático no imaginário, substitutivamente ao cânon letrado, de modo que a super-heroína e o super-herói se tornaram referenciais correntes de adultos na Globalização. Mas sem dúvida a década passada do petismo - quando se institucionalizou a dominação info-midiática e a privatização atingiu records - contribuiu para a virilização da mulher, como limite do imaginário na posição fálica radicalizada, ter-se tornado comum.
O próprio Lula, na época do impeachment, convocava o "grelo duro" (grelo sendo o termo chulo que significa clitóris), como o que deviam ser as mulheres que o defendessem não obstante a corrupção comprovada pelos processos da lava jato contra o governo dele ou Dilma. Antes da faixa repetindo o slogan, os cartazes de protesto e os figurantes performáticos que abordavam os visitantes com mensagens petistas, há tempos o MEC (RJ) já ostentava na frente do prédio - este ícone Le Corbusier - um desenho de útero a cores metálicas bastante fálico. A linguagem do funk midiático restrito a glorificação do poderoso e à rivalidade feminina (o clássico brasileiro da luta pelo homem pela derrota da rival, tal que ambas tipificam o modelo de comportamento ou etnia, classe, etc, que se está defendendo e - conforme essa "lógica" como que "por conseguinte", atacando), apresentava moças que diziam em entrevistas que tinham raios que podiam lançar da vagina. Atualmente está na moda moças irem a festas do high society documentáveis em revistas do tipo Caras, com correntes presas na mão das quais pendem coleiras encadeadas nos pescoços de alguns rapazes sem camisa andando de quatro atrás dela, caracterizados como cachorros humanoides. À direita, já há tempos popularizou-se o que se designa feminismo às avessas, como Camile Paglia , Catherine Hakin, repetindo como se fosse uma descoberta o comezinho da ideologia sobre como deve se comportar a mulher conservadora, ou Esther Villar - quanto a esta, ao menos, não creio que não faça sentido o que propõe como o império feminino sobre o homem em O Homem Domado, mas isso não sendo qualquer novidade na teoria feminista, ao contrário do que a mídia alardeia ou ela mesma parece crer.
O que opõe a primeira e a segunda onda do feminismo sendo justamente a posição da teoria a propósito desse lugar apenas fantasiosamente poderoso da mulher, visto que ela "domina" não qualquer "homem", mas somente aquele que usa o peudo-domínio assujeitado dela - mãe, rainha do lar, reprodutora do ethos viril, "que vigiem as suas cabras que eu vou soltar meus cabritos", etc. nada além disso ou então marginalizada, presa, assassinada - como a francesa decapitada pelos colegas revolucionários porque ela exigia os direitos da mulher, e W. Reich mostrou que também na URSS frustro-se qualquer "revolução sexual" - como demagogia justificativa do status quo.
Na primeira onda - à Heloneida Studart como pretensa revolução de esquerda, mas já desde o oitocentos conforme o estudo de Benjamin sobre Baudelaire e os grupos modernizantes, ver a propósito o meu "O pós-moderno, poder, linguagem e história" (Quártica editora) - a mulher atribuída do status quo como porém apenas a mulher comum não iniciada na seita feminista que se atribuía a identidade do heroísmo modernizante civilizador como na utopia paranoicas do hermafroditismo programático eliminação da maternidade por obrigação do Estado se encarregar dos nascituros, etc. era apenas hostilizada a não mais poder, mero artigo supérfluo culpada de colaborar com a mentalidade chauvinista não obstante o quanto ela era a mão de obra do serviço doméstico e familiar; na segunda onda, quando já se compreendeu que o mercado de trabalho não muda de caracterização masculina (competitiva, suposta racional por oposição ao emotivo, etc.) e que o trabalho da dona de casa é apenas assim melhor explorado sem pagamento (pela ideologia do trabalho como o oposto do lar) ela tem sido o referencial do que se precisa compreender em termos estruturais da "sociedade" como cenário de status conflitivo, isto é, terreno da luta pelo poder chocando-se com os objetivos da democracia.
Assim Gabriela Mora notou que alguns supostos arquétipos como a dama, a pícara, a heroína romântica, se deixam reduzir à imitação de modas literárias ao invés de resultarem das "reflexões autorais fruto de vivências existenciais". Mas "algumas imagens da mulher que a literatura projetou através do tempo", a passiva, o anjo da casa, a vampira de homens, a mãe abnegada, a solteira frustrada, "podem ser relacionadas, obviamente, com as influências sociais" - tanto como também literárias. A "chave" aí, quanto à repercussão na literatura feminista, são os textos que rompem com tais cromos tradicionais, "e a análise das circunstâncias de suas origens". (Critica Feminista, apuntes sobre definiciones y problemas, texto de xerox, p. 6)
43 Também o mapa dos coletivos mostra certa correlação do movimento de mulheres com o megafavelamento, como formas de defesa e conscientização comunitária. Assim é visível alguma relação com religiões não-ocidentais, como os cultos afro-brasileiros, inter-relacionando as questões de gênero e etnia, de modo que a tópica feminina se confunde com o misticismo politeísta, relacionado a deusas, ou à idealização popular da mulher como "deusa", quando é alguém que se queira homenagear, e como seria esperável o ódio a figuras femininas contrárias ao estereótipo da "deusa" é secular no imaginário brasileiro, independente do feminismo. É provavelmente nesse contexto que devemos entender a onipresença da concepção de "sororidade" (irmandade) das mulheres entre si, nos textos de coletivos feministas brasileiros na Internet, como o objetivo ou a concepção interna ao grupo. Algo não de todo estranho à linguagem praticada internacionalmente na teoria feminista, porém assim sendo necessário situar a proveniência do uso, pois pode ter variantes relacionadas à regressão ao caráter identitário na conscientização, por aqui onipresente nas organizações de questionamento do status quo no contexto da Globalização.
43' Visto que esse caráter identitário é o "link" com o business de mídia, que usualmente só referencia o que pode tratar na base do "tipo" quidificado, não causou surpresa o fato de que após alguns dias consultando a internet a propósito de algumas escritoras feministas, constato agora que os sites oferecidos já estão "modificados", de modo que as referências se tornaram de nulo ou escasso interesse conceitual, os textos tratando as escritoras como fetiches glorificados, com grande sensacionalismo, mercadorias alcandoradas para produzir fascinação, agregando listas de nomes próprios que seriam associados a elas mas que apenas repetem os nomes conhecidos da reificação dos modelos sociais que a mídia pretende fantasiosamente estar ao mesmo tempo"impondo" como os nomes anônimos dos "universitários" ou "profissionais liberais", etc.- o que significa apenas estarem hostilizando produtores realmente independentes ou que tenham o que expressar; e refletindo o que seria a "sociedade", naturalmente apenas fantasiada pelo editor de mídia, que os associa a propaganda de mercadorias ou provedores de internet que sendo concorrente dos demais se expressa na forma da belicosidade e do fingimento gestual de "ser" superior, ser o "alto" ("consequentemente" devendo marcar o número dois, assim como tudo que vem em segundo lugar nas listas de sites, com o termo "baixo") situando as autoras como alguma espécie de gladiadores que estão servindo de espetáculo a um público ávido de agressividade e demonstrações de poder destrutivo do "outro". Isso relacionado à teoria feminista torna-se realmente risível - não fosse tão grotesco - porém nada novo. Assim podemos citar aqui oportunamente a Tel Quel: "Somos censuradas, para melhor sermos exploradas, da produção textual e teórica pelos capitalistas da edição, do inconsciente, do sentido (editores burgueses, psicanalistas revisionistas, intelectuais homossexuais masculinos)" todos esses peões da estrutura inerte "vampirizante [que] pretendem nos paternalizar, nos converter, nos identificar." Só não cremos hoje que sejam apenas homossexuais masculinos - aqui o termo não significando a prática sexual de homens, mas contextualmente, como psicanálise num dos sentidos psicanalíticos, qualquer ligação afetiva entre pessoas do mesmo sexo, aliás na Tel Quel também se considerando a solidariedade feminista como homossexualidade nesse sentido - os protagonistas do que tampouco creditamos como estrutura a mais de mera bagunça, desordem do banditismo internacional imperialista no qual não há diferença qualquer entre máfias meramente corruptas ou tachadas ilegais. Assim também já se institucionalizou nas páginas comuns e mesmo entre as notícias de sites jornalísticos anúncios de firmas de prostituição, como o "sugar baby", toda a linguagem de mídia norte-americanizada-norte-americanizante é pedófila, etc. A propósito é interessante que nos out doors de propaganda de cursos universitários pagos, haja overdose do título "formação de líderes" assim como da palavra "líder", como se qualquer sujeito que fizesse o curso tivesse pois a obrigação profissional de catar "liderados" seus não se sabe onde ou quem se prestando a isso, palavra que no entanto jamais comparece nesses cartazes.
44 Reflete também a linguagem dos movimentos feministas proeminentes na internet, a realidade da sabotagem da cultura letrada no cânon escolar. Não obstante a teoria feminista ter seus críticos de outros setores de conscientização do gênero, como lgbt ou etnias, só localmente parece ser o caso de não termos na atualidade figuras famosas feministas tanto por atuações culturais como propriamente escritoras de mercado, não restritas ao gueto acadêmico, assim como tínhamos até atuações como de Rosemary Muraro, o que é de espantar num país que teve nas duas décadas recentes um governo de esquerda. Repetindo, mesmo a produção universitária estrita a propósito do feminismo e da escrita feminina não consta no "search" internet, porque aqui não costuma ser mercatorizada ao contrário do importado por autores do primeiro mundo, Há preconceito das academias com o que é lido popularmente, ou melhor, "pelas camadas médias da população", visto que não se crê que o popular leia - para quais camadas se canalizando títulos considerados acessíveis, e um código específico de simplificação máxima do escrito pelo autor, sancionado por secretárias dos próprios editores que só publicam textos assim reescritos, a função delas sendo reescrever o texto a ser publicado como do autor, conforme as regras de um manual de texto haurido do jornalismo, habitualmente da "Folha de São Paulo". A propósito os meus livros anunciados na internet e já circulando desde antes foram publicações independentes, isto é, comprei a edição, portanto não são adulterados por secretárias ao menos até onde pude controlar os erros de editoração, como informei em meu mais recente Riqueza e Poder, a Geoegologia, que veio com erros acrescentados a grande número, que pude corrigir parcialmente - até aonde comprometia a leitura. Livro que a editora não colocou na internet, porém há minha palestra no google, Iserj, agosto 2018.
45 Mas o populismo autoritário foi a regra do petismo, ao contrário de tudo o que quiseram fazer crer os artistas internacionais do poprock que fizeram com radicalidade oposição a Bolsonaro, sem querer ouvir quem tinha a informar sobre o estado calamitoso da qualidade de vida e direitos políticos no Brasil petista. Assim é congruente que na internet a pesquisa tenha constatado várias referências de sites à "primeira onda" (centrada no mercado de trabalho) do feminismo, mas nenhuma à "segunda onda" (atual, centrada no lar das emoções) que Benhabib especialmente tem referenciado. A atuação dos lobbys contra os direitos das mulheres casadas consiste, aliás, na fetichização onipresente na propaganda do procedimento calhorda de numerar as mulheres, utilizado à náusea nestes vinte anos pelo business de mídia, indústria fonográfica, etc. A "primeira" da sílaba é então a que o esposo namorou antes do casamento, mas se o politiqueiro de plantão não consegue impedir a circulação da esposa nas lojas, etc., só por causa disso, inventa o romance da "terceira", qualquer nome que possa usar para atribuir como adultério do marido, estando ligado o lobby da numeração a todo tipo de contravenção assim como máfias de prostitutas, etc. - com cujo capital evidentemente as agências de propaganda e trusts de mídia são financiados, assim como os corruptos politiqueiros de direita e de esquerda.
46 A manobra da numeração das mulheres para anular os direitos políticos da cidadania da mulher casada "housewife" (dona da casa, responsável pelo serviço doméstico ou se for rica pelo comportamento dos serviçais) também se repete na esquerda populista para obrigar a esposa a trabalhar fora escravizando-se a patrão, câmeras de business de mídia, etc., visto que no retrocesso fascista do Brasil na globalização por mais que a mulher se arrebente de fazer faxina, lavar roupa, limpar louça, usar o ferro elétrico, cozinhar, etc., educar crianças ou escrever livros, sempre está sendo atribuída o número dois, uma vagabunda débil mental como Heloneida Studart (do PMDB, o partido sanguinário que manteve por três anos, 2016/2019, os salários dos funcionários públicos atrasados, de modo a extingui-los por inanição ou os obrigar a pagar juros absurdos a bancos) apregoa, e o povo ignorantizado repete muito ancho de ser analfabeto sindicalizado da máfia ou vendedor ambulante de contrabandeados a preço "livre de impostos".
47 O total achincalhe à mulher casada no Brasil passa naturalmente por forçar a legislação que já atribui as obrigações do marido a liberar de pensões para, como observei, obrigar a sujeitar-se a patronato ou a pseudo-líderes de sindicatos que apenas se reduzem a lavagem cerebral da corrupção e da ideologia da brutalidade. Assim desde a mídia norte-americana, onde a figura da mulher madura está barrada, para mostrarem idosos de setenta anos casando como meninas de quinze, alastra-se pelo mundo o absurdo pelo qual a mulher casada, monopolizada pela família, não teria direitos de pensão em caso de divórcio, mas a ex-namorada ou a prostituta que porventura tenha logrado levar para a cama, tem direitos de aparecerem na mídia ligadas aos nomes e imagem social dos maridos.
Gilberto Freire, que utilizava o negro etiquetado de puro infantil como símbolo da desvirginização do senhorzinho da casa grande com a crioula da senzala, utilizava tal estereótipo para marginalizar a "senhora branca" - assim a misoginia da Vanguarda regionalista (não a de Mario e Oswald, mas a que demarcou um reacionarismo linguístico realista notável) aqui empregou muito esse tema - mas se podemos atribuir tal antropologia funcionalista como de todo atrasada ou sexista, não há dúvida de que na Globalização profissionais de baixo nível utilizam tal pan-catolicismo novamente nas salas de aula a contrapelo dos avanços da antropologia com que qualquer profissional nas ciências humanas responsável teria o devir da veiculação. Aqui a história local ainda não integrou nada da antropologia do aborígine, faz-se como se o continente fosse vazio até aparecerem as "sesmarias", os "jesuítas", etc.
48 Quanto à defesa das mulheres casadas, necessita obviamente identificação dos espiões da vida doméstica, que atuam nas contas de internet, assim como dos politiqueiros que praticam ostensivamente operações anti-cidadania.
49 Aqui devemos registrar o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, mão de duas filhas, em São Paulo/2014, por lobby de whatssapt/internet, grupo que a caluniou como bruxa sequestradora de crianças, atacando-a na rua por portar um livro de capa preta, que no entanto era a Bíblia. Aqui reporto que de tempos em tempos os artigos que aparecem no search internet a propósito - por vezes do mesmo jornal - mudam a versão dos fatos. Não creio numa das versões da mídia de que o grupo já não estava fazendo lobby caluniador antes, apenas a confundiu com o retrato de uma criminosa que a polícia lançou na internet - cujo rosto não tinha nada a ver com o dela. Pois práticas de assédio a mulheres casadas, não chegando a linchamento mas abrangendo obter terrorismo de atendimento em lojas ou no uso das vias públicas com atacantes verbais saindo atrás delas, são usuais até que se identifique os culpados, sobretudo os líderes, por controle expresso das mensagens de whatsapp, com legislação cabível para os encarcerar. O absurdo da regressão psíquica no Brasil da globalização foi tão grande, que a redução da cidadania a horda coletiva se tipifica nisso pelo que mesmo agentes de saúde não reconhecem a "sociedade conjugal" - base da legalidade constitucional. Para agências de saúde pública, um casal mesmo morando numa cidade grande, em prédio com porteiro e vizinhos, com emprego, etc. é "isolado" - nisso repetindo terminologia de partido comunista português que considerava, erradamente na perspectiva sociológica, "isolados' famílias inteiras que no entanto eram camponeses fixados em regiões com pouca densidade demográfica. Outrossim, ao andar nas ruas a mulher visada pelos lobbistas que sabotam consultas médicas, comércio, etc., ou seja, tudo o que prove que não está isolada, também não pode meramente olhar os demais transeuntes, porque se atribui que está "paquerando", fazendo algo muito obsceno, etc. O sadismo no RJ é algo que deveria ser estudado, porém também isso pode estar orquestrado por lobbistas.
50 Grupos de lésbicas ou de mulheres que porém são aversivos ao momento atual do feminismo que pugna pela obtenção das garantias legais a todas as mulheres sem imposição de ideologias quaisquer, são também responsáveis por organização de lobbys incentivados por business de mídia esfomeado por ibope, também igrejas, dirigismos de direita americanos sabotando a educação, etc. utilizam tais práticas. Eu mesma registrei a intromissão em meu computador da foto de relações sexuais de lésbicas, que aparecia ao acionar o ícone de salvar documento em libreoffice.
51 A multiplicação de "coletivos" de mulheres na internet parece promissora da renovação cultural e resistência contra o sexismo, mas temas da subjetividade feminina são ainda recalcados, pela regressão desde os tempos petistas ao estereótipo de grupo - como por exemplo, a onipresente "cartilha" (assim intitulada) em qualquer referência local de politização à esquerda, setorizada ou não, contra a já conceituada crítica do cartilhesco na nossa pedagogia letrada recalcada pelos lobbys do populismo.
52 Mas essas cartilhas da esquerda, setorizada conforme a clientela, também oferecidas como próprias de coletivos feministas, não obstante parecerem relacionar-se aos panfletos instrutivos dos movimentos da guerrilha urbana na clandestinidade durante a ditadura militar, que instruíam popularescamente sobre o modus operandi do capitalismo, no contexto redemocratizado apenas performatizam uma prática constante das instituições na globalização, que antes era apenas característica das instituições sociais de direita ou francamente autoritárias que persistiam na ideologia colonizadora.
53 Trata-se da divisão imaginária performatizada imperativamente, pela qual a instituição, o partido, o cargo ocupado, agora o coletivo, etc., se colocam de modo invariável na posição de grupo sujeito, relativamente ao "povo" como grupo sujeitado, cliente potencial visado sempre na qualidade do ausente de cultura, o que se deve civilizar pela informação das "regras" - a palavra "costumes" jamais utilizada - da racionalidade ou da correção.
54 O grupo sujeitado também não é pensado como uma população no sentido da multiplicidade quantitativa, mas projetado como um único estereótipo ao qual se costuma nomear - a "qualidade" do nome é um fator ideológico, há tipos de nomes para grupos pobres, ricos ou que se queira apenas generalizar, essa sendo uma prática onipresente na imprensa quando fala de alguma condição de status - por exemplo, a mulher na menopausa - de que pretenda fazer a cartilha (geralmente de traços estereotipados) num artigo suposto de serviço público. A instituição e as lojas costumam agora adotar nomes de status para se identificar contra a população comum ou contra outros nomes de status - como se a cidadania fosse exposta a automatismos concorrenciais como o de firmas comerciais conforme a ideologia de que o cartel que impede a pequena empresa apenas está esmagando o adversário como o time de futebol, etc. A paranoia da identidade, como mais um aspecto do narcisismo primário generalizado por práticas de populismo politiqueiro conjugado a sabotagem social do business de mídia, alcança níveis espantosos.
A particularidade de culturas como aborígine ou negra, que trata miticamente a identidade, mas num contexto próprio, se torna mercatorizada como mais um expediente de ação de abuso contra os cidadãos. O nome próprio, o rosto atual, algum ato, como a pessoa mesma, como se não pudessem mudar ou não fosse contingente, como já reportei o nome podendo ser número no caso de pantominas orquestradas em torno de mulheres casadas, etc. O casamento de pessoa divorciada num cartório do RJ é um drama. Os noivos, no ato do casamento, e seus convidados, tem que ouvir o escrevente ler publicamente um documento onde consta o nome do ex-cônjuge do(a) divorciado(a), número da carteira de identidade e cpf. Um cartório chegou a fazer "erro" evidentemente proposital para achincalhar os noivos. Fez a noiva ler um documento onde constava os papeis que apresentou, porém onde se fazia confusão da "certidão" que a noiva apresentou , assim ameaçando-a de morte, escrevendo errado aonde deveria constar que apresentou certidão de "nascimento". Após o escrutínio da expressão dela ao constatar o erro, pegaram o papel e o rasgaram, substituindo-o.
Incomodam gente nas ruas para criar situações supostas exemplares para mostrar como elas se comportam erradamente - quando a situação não tem nada a ver com o que está suposto ser mostrado, ainda como no tempo da academia grega quando para refutar a definição do homem como bípede sem plumas se jogava um frango depenado no colo do pensador, ao invés de manter o nível da controvérsia ali onde se desenvolve, na linguagem, visto que não havia uma consciência da cisão público e privado, da autonomia das matérias, teóricas e estéticas, etc. Só que o incômodo se faz com a cooperação da cidadezinha do interior, ou filmado pela mídia, etc. Em compensação, uma autora que escreveu na internet sobre a abordagem de um policial a Jameson, quando ele tentava entrar em casa, porque ele tinha esquecido a carteira de identidade, isto é, meramente o documento da identidade civil, escreveu que os documentos civis são "amuletos", criticou a segurança pública, etc. Ou seja, não se trata de uma fase arcaica onde se possa classificar comodamente uma sociedade, mas uma regressão violenta relativamente ao que já se pode documentar há tempos da mesma sociedade, por descaso corrupto com o comportamento de contravenção, fascismo útil ao capital-imperialismo, formatação de mídia dos costumes por censura e monopolização dos meios culturais e educacionais, etc.
55 Já observei que nomes e episódios de mídia são copiados de vidas particulares para serem distorcidos como propaganda ideológica dessas firmas, o que deve ser objeto de processo público, o que muitos já fazem. Usam até mesmo material escrito roubado a computadores por procedimentos clandestinos de predação tecnológica. Panopticuns são montados nas casas, etc. - ao contrário de Foucault, não julgo que isso é básico da modernidade, ao contrário, a constituição o arrola como crime, só que o politiqueiro corrupto não pune, é preciso governo legal, objetivo que creio os movimentos feministas pós-modernos, que não visam programações ideológicas sectárias ou de partido, mas sim garantias legais às mulheres, devem ter por seu. Assim, como o que se opõe ao estado merismático da incultura, a sociedade é imaginada como apenas o reflexo da instituição, como uma vitrine da qual a instituição pode a qualquer momento extrair exemplares do bem e do mal.
56 Em geral os movimentos feministas, se tem necessariamente características intrínsecas à cultura nacional em que se organizam, podem porém ostentar algumas rubricas internacionais, como legalização do aborto. Tornando agora à questão da pós-modernidade como um locus introduzido nos anos oitenta mas que assim vem num paralelismo à controvérsia entre Teoria Crítica e Pós-estruturalismo, seria oportuno retornar à consideração em torno do feminismo francês em gera e Julia Kristeva em particular como o referencial gerativo do pós-estruturalismo na teoria feminista. Esse pólo deve ser estudado singularmente visto que o volume que estamos focalizando a propósito das teóricas americanas só tem um locus do pós-estruturalismo em Judith Butler, que não desenvolve porém temas da prospecção e transformação da linguagem. Como vimos, esses temas são axiais na produção francesa.
57 Quanto ao que examinamos da Tel Quel como uma amostragem do cenário no auge da influência pós-estrutural, podemos ter um visada do modo como repercutiu na generalidade da empreitada. A publicação de New French Feminism, de Elaine Marks e Isabelle de Courtivron, é um referencial antológico - nos termos de Mora - que fala por si. Mas uma citação de Adrienne Rich em Mora também é expressiva da mesma influência, nos rumos do que poderíamos designar uma política da linguagem: "una critica radical de la literatura de impulso feminista deberá tomar la obra, ante todo, como uns clave para vivir, para saber cómo hemos vivido hasta ahora, cómo se nos há guiado a imaginar nuestro ser, cómo nuestra lengua nos ha atrapado a la vez que nos ha libertado, y cómo podemos empezar a ver, y por lo tanto a vivir de manera nueva". A ênfase no novo é provavelmente uma rubrica que poderíamos atribuir como vindo do maio de 68 maoísta ao movimento das mulheres. Assim essa ênfase é a coordenada que nos permite entender o modo como o feminismo era então colocado num patamar de militância e mudança existencial. Conforme Gabriela Mora, "a íntima relaçaõ deste tipo de leitura com os problemas sociais conduziu Chéri Register a identificar 'crítica feminista' com 'crítica cultural'..." Enquanto Marcia Holly propugnava uma ativa militância atráves da prática crítica. E Elaine Schowalter, que entre os anos oitenta e noventa teve muita penetração como escritora no Brasil, mantem que "o feminismo toma seriamente a literatura como uma crítica da vida". (op. cit. p. 7) Contudo a essa altura talvez já fosse necessário fazer certas segmentações. Não só no próprio feminismo francês, visto que entre Wittig/Duras por um lado, e Kristeva por outro, pode não haver uma total coincidência de horizontes não obstante a convergência militante, e também assim começar a pensar as irredutibilidades que mesmo sutis de início, marcam a impossibilidade de designar como o mesmo pós-estruturalismo e pós-modernismo.
58 A retórica de Schowalter já não focaliza o novo como a Tel Quel, visto que não prolonga ou visa reatualizar o radicalismo da Vanguarda. A Teoria Crítica, assim como os inimigos do pós-moderno a exemplo de Jameson e Eagleton, não costumam fazer essa segmentação tão necessária quanto se pode ver pelo fato de que Deleuze repudiou o pós-moderno como ruptura real, e Derrida tem uma concepção de mudança temporal bastante oposta a algo assim, na Gramatologia. Enquanto Lyotard confunde um pouco os termos, vemos que o que ele defende como pós-moderno epistemologicamente é apenas o que Foucault designou propriamente a modernidade como axiomática estrutural do objeto quase-transcendental, em As palavras e as coisas.
59 Algo precisou ser abandonado, algo deve ter emergido como transformação temática, entre os tempos da Tel Quel - tão marcados pelo radicalismo do novo, como do materialismo e maoísmo, quanto na verdade apenas repetindo a vanguarda já centenária entre Mallarmé e Artaud, esquecendo que Mao fazia retorno "revolucionário" apenas à cultura milenar chinesa - e algo intitulável como pós-modernismo.
60 As contradições da Tel Quel e as questões que a leitura do artigo de Kristeva nesse número da revista (" Sujet dans le langage e pratique politique") permitem por mostram-se agora importantes à reflexão.
61 O artigo de Kristeva se elabora em torno da oposição do linguístico e do semiótico. Se esta cisão é do que procede todo pós-estruturalismo, portanto numa ruptura com o progressismo da langue lacaniana, conceituar a originalidade dos pensadores desse novo campo se faz pela definição de cada um deles a propósito do nível semiótico - a "escritura" em Derrida; a análise do discurso do saber, poder e subjetivação em Focault; a "produção desejante" com seu correlato de "memória virtual" em Deleuze. Este é portanto é uma exceção porque não se restringe à descobrir como que a camada subatômica no terreno da linguagem, aquela que está aquém do nível da palavra (ou das teorias, leis e status reportáveis independente do que os estrutura, em Foucault) e que portanto corresponderia ao modo de formação dos imperativos inconscientes. Rompe Deleuze assim com o "significante" para postular modos de signo como modalidades expressivas de territorialidades ativas ("produção" como qualquer ato conjugado a coisas no mundo). Mas sem dúvida se mantem como os demais, na margem de consideração do signo-partícula, sintaxe variável, jogo combinatório articulado a práticas corporais e afetivas.
62 Em Kristeva o semiótico é estritamente da ordem da linguagem, expresso como faixa do ritmo que permitiria pensar uma heterogênese da subjetivação.
63 A originalidade de Kristeva nisso não seria definível, já que o ritmo, como "entoação" já havia sido definido como camada originária por Tomachevski, oriundo do formalismo russo. Mas em Kristeva há de fato um novo momento, não só porque ela se coloca de modo original naquilo que vinha sendo, até o estruturalismo althusseriano, a oposição exemplar de materialismo dialético e formalismo - como permite ser visto genuinamento num artigo de Trotski contra Chlovsky.
64 Kristeva não se vota a banir Hegel do pensamento estrutural e seu desdobramento semiótico, como fazem os demais citados, e já Althusser, o ícone do estruturalismo ortodoxo, que separava até mesmo Marx de algum cromo inversor da fenomenologia hegeliana. Inversamente, ela faz retorno a Hegel. Antes mesmo de observarmos como esse novo momento da controvérsia materialismo/formalismo se especificou, devemos notar a contradição pela qual a Vanguarda é utilizada como o locus da descoberta da semiótica do ritmo, que é também aquele em que a mulher se instala como vocação revolucionária, porém a Vanguarda, como observei em meu estudo em blog "Trajetória da Vanguarda", foi bastante misógina.
65 Os ataques dos surrealistas envolvendo Artaud a mulheres como Germaine Dulac, a esposa de Chaplin e Mme. Aurel puderam ser algo relacionados ao que se designou a perseguição à "senhora palavra", conforme expressão atribuível a Baty (1921), visto que com relação a esta, ocorreu ser interrompida e ofendida num banquete por estar perorando. O "drama da palavra" em Artaud, assim como cobre Alain Virmaux (Artaud e o teatro, São Paulo, Perspectiva, 1978), realmente muito se aproxima do objetivo semiótico de Kristeva. Se bem que, conforme o livro citado, esse drama da palavra evolva por linhas de contradição manifesta, entre as propostas de destruição, conservação e transfiguração, e em Kristeva, ao contrário, não haja nada dramático mas sim uma teoria bem definida do que seria a liberação do gozo, trata-se em todo caso de recusar algo como o uso comum da palavra.
66 O paralelo de Kristeva com Artaud aqui me parece interessante, ainda que para ele a questão da palavra se coloque em função da renovação do teatro em suas relações com o script, o texto escrito, a vanguarda procedendo pela autonomia do teatro novo relativamente ao que já pudesse ser realizado pela literatura, ou apenas como uma encenação dela. Pois se trata de uma linguagem a ser acrescentada, paralela e autônoma, à "palavra falada". Nela "as palavras serão tomadas num sentido de encantamento, verdadeiramente mágico por sua foma, suas emanações sensíveis, e não somente por seu sentido". (p. 85) Em Kristeva a independência do semiótico se coloca também relativamente ao sentido.
b)
1 Nesse artigo da Tel Quel que estamos examinando, Kristeva não tangencia diretamente a questão das mulheres, além de denunciar que mesmo os novos movimentos e entre eles o das mulheres se internaliza o aparato identitário, que resulta no reacionário objetivo de "ser mulher" unicamente "com a bênção do papa se possível e contra Allende se o modo de vida estiver em causa". O artigo apenas politiza a subjetivação como iremos ver.
2 Mas se na entrevista que já reportamos da mesma revista, tampouco ela defina precisamente o rapport semiótico na escrita feminina, num certo sentido o faz ao afirmar que o termo "feminino" poderia designar "o momento de ruptura e de negatividade" que modela "a novidade de toda prática" mesmo teoremática, teórica ou científica. "Nenhum Je se coloca aí para reivindicar essa 'feminilidade' mas ela não é menos operante". O "sujeito da pesquisa (recherche) conceitual" é portanto um sujeito em processo que "rejeitando a finitude e assegurando na jouissance a vida do conceito é também um sujeito da diferenciação da contradição sexual".
3 Sendo o polo relacionado ao semiótico no artigo citado, inverso ao sujeito fixado contra o devir na substancialização do simbólico. Ao contrário, em Kristeva o nível semiótico seria aquele em que o sujeito em processo descobriria sua expressão mais própria uma vez que ao contrário do que ocorre na dimensão simbólica, o nível semiótico não se fecha numa lógica binária que frustra a intenção mesma de objetividade que a distinguiria, por se prestar a regressões como à identificação narcisista. Com efeito, Kristeva acusava já nos anos setenta, relativamente a 68, "um período de regressão: eu o definirei como uma submissão à lei e à identidade", ou seja, não uma conjugação da lei com a prática e interesses reais, visto não ser a lei o que o simbólico prometeria, a pura funcionalidade do nível publico. "O sistema premia o sujeito: ou melhor, a ele ajustamos nossa prática, quando não somos coagidos a nos deter, idiotamente (tout bêtement)".
4 Porém ao contrário do que estamos vendo hoje como o ápice do que poderia já ter sido pressentido como a regressão narcísico-identitária quanto ao que caracteriza o processo de dominação anti-democrática do capital-imperialismo, antes mesmo dele ter atingido o ponto capital da dessovietização, Kristeva pensava que a convergência de políticas de esquerda ou direita nesse sentido podia ser definida em torno do objetivo nacionalista.
5 Assim nem mesmo seu texto compreende a conjuntura como de crescimento do imperialismo. Fredrik Jameson, inimigo declarado do nacionalismo, expressa uma mesma concepção, quando "periodizando os sixties", reporta que a ruptura conspícua dos setenta em relação à década precedente poderia ser definida em termos de um abandono do terceiro mundo pelo interesse conceitual do primeiro mundo, quando já teriam sido assimiladas as influências oriundas das guerrilhas como o foquismo cubano, o maoísmo, etc., que não eram pois mais novidades.
6 Em 1974 porém a guerra do Vietnã ainda estava a pleno vapor, envolvendo toda a sociedade norte-americana - se não já pela mobilização dos jovens, como peso de negociação eleitoreira. Em meios dos anos oitenta os comunistas do mundo inteiro estavam às voltas com a questão das ditaduras militares montadas pelo planejamento imperialista, como na América Latina. Uma consulta a registros importantes em artigos dessa época mostra os pontos lacunares pelos quais os comunistas de algum modo filtravam a transição do conflito leste e oeste, como discurso de planejamento anti-comunista, a norte e sul, como realidade ostensiva do imperialismo não só como correlato das ditaduras. Mas também do cenário das guerras de descolonição ainda remanescente na África como na Namíbia onde assim como nas ditaduras se utilizavam os USA, para defender os interesses capitalistas da colonização europeia, de nazistas e neonazistas. E nos ataques bélicos dos USA a países americano-latinos que estavam podendo intencionar governos de esquerda.
7 Neste mesmo número da Tel Quel, Gunter Grass se refere a ditaduras então atuantes no primeiro mundo em Portugal, Grécia e Espanha, assim como a Leste na Tchecoslováquia, com aparato bárbaro idêntico ao que sabemos das ditaduras na América Latina e Oriente Médio. Num paralelismo com as observações na mesma revista, de Antonin Liehm sobre a URSS, as relações da Russia e seus países satélites, um pacto social em torno da exclusão dos intelectuais era pensado como a nova realidade, na qual a cooptação do mercado de trabalho serviria como automática inclusão da ideologia.
8 Esse domínio "brando" à Foucault não combina com a ditadura, mas de fato o que Gräss estava demonstrando era a substância do despostismo não como se apregoava, apenas no interesse da segurança (anti-comunista), mas como pacto contra a liberdade da cultura - o mesmo pois que vimos com Liehm. Ainda que Gräss não idealize a liberdade de opinião, caracterizando-a em termos de aptidão ao contrassenso, visto que os artistas especialmente seriam uma classe irritante, com uma mania de contrariar, ele observa que esse é o preço pela democracia como o contrário do despotismo, e a democracia mesma seria o corretivo para despotismos intra-culturais. Um Estado dos cidadãos, não o despotismo que reduz o cidadão ao Estado, defenderia pois os sujeitos de abusos de artistas tanto como de quaisquer outros, tão bem como artistas ou quaisquer outros podem, ao contrário, defender a liberdade contra o despotismo.
9 Em todo caso, assim parecia realmente estar-se isolando no primeiro mundo, como prototípico da presentness ou "desenvolvimento", um mapa funcional da hegemonia "branda". Sem precisar de ideologia, ou em outros termos, tendo-a universalizado, pois cooptando automaticamente pela assertividade do emprego e do divertimento, assim blindando-se contra a cultura crítica que não tem papel nessa dualidade, como característica do mundo atual, total abstração feita do imperialismo.
10 A própria intelectualidade dos países desenvolvidos que se batia contra o despotismo, atuou desse modo contra a resistência das nacionalidades dos países que as ditaduras estava avassalando para facultar o domínio das multinacionais do primeiro mundo. Gunter Gräss já antecipa no seu artigo da Tel Quem o que chamou da nova era - no sentido da repetição do antigo - Metternich. Que se estivesse assentado em todos os organismos a Leste e Oeste tentaria provavelmente obter o desenvolvimento da união europeia. A UE atual é com efeito um resultado, mas sim da dessovietização e do neoliberalismo econômico que inviabilizou a representação estatal dos interesses da população contra o abuso do poder econômico ou monopolismo, e como Wilson Canno observou, é um novo protecionismo.
11 Quanto propriamente ao pólo semiótico de Kristeva, devemos notar que a semelhança com Tomachevski é importante frisar, visto neste ficar expresso não se tratar do ritmo como métrica fixa, mas ao contrário, como "entoação" livre. Na imanência do formalismo russo, O. Brik já havia definido o "movimento rítmico" como algo independente do que dele se poderia derivar nos termos da métrica fixada como arte poética, mas de fato não só precede a métrica, como também "o movimento rítmico é anterior ao verso. Não podemos compreender o ritmo a partir da linha do verso; ao contrário, compreender-se-á o verso a partir do movimento rítmico." O conflito de semântica e ritmo como essência da poesia é para O. Brik relacionado ao conflito de escolas que privilegiam respectivamente o social e o formal na história da literatura. Exemplifica com o simbolismo como reação ao "verso 'social'" realista "sobrecarregado de semântica" cujo inverso absoluto é porém o que ele chama linguagem ou língua poética transracional, onde chega a haver um verdadeiro non-sens rítmico como em Derjavine e nos futuristas Klebnikov e Krutchenik, não obstante o futurismo conservasse a importância da semântica em Maiakovski - que no entanto Kristeva considerava num "duplo registro" de desestruturação do político como medida comum à Platão, pelo semiótico onde "o sujeito unário se põe em processo", não obstante considerar o fracasso individual de Maiakovski um signo do fracasso político da revolução soviética. Ela salienta que aí não demarca tanto o literário mas uma atitude nova em relação à clausura (clôture) sócio-política. Romper com o ato político comunitário nos termos de um estatuto do presente para evocar o futuro anterior, que pela anamnese da camada originária da linguagem apelaria a uma utopia que a tese simbólica recalca.
12 Mas como vimos, para Brik trata-se mais que de poética, da consistência da linguagem, assim ecoando o conceito de entoação de Tomachevski. Brik considera o ritmo portanto numa oposição ao semântico que na literatura se limitaria a explorar o sistema das curvas de intensidade da língua comum e que seria funcional a épocas de mudança histórica, quando se quer expressar realidades novas para as quais a linguagem poética anterior não tinha antevisão ou qualquer referência útil. Mas sua concepção é que uma recusa total da semântica, como poesia transracional radical à que chegou Titcherine, na qual a palavra se decompõe em sons, e mesmo estes em signos quaisquer evocando ritmos correspondentes, não se mantem no quadro da língua poética que é um campo de conflito entre o non-sens e a semântica quotidiana. Por outro lado, a evolução de Puchkin seria exemplar, pelo que este poderia ser considerado, contrariamente a um violador das tradições estéticas como se lhe atribuiu, um mestre da harmonia clássica. Puchkin vindo da tendência estritamente semântica representada por Nekrassov, na fase tardia desligando-se dela para subordinar o sentido ao ritmo, mas com um momento de maturidade ou plenitude entre ambos no qual soube combinar as duas exigências, da estética da poesia e da construção semântica. Isso explicaria porque Puchkin e atrai involuntariamente todos os pesquisadores do verso russo. É interessante que o título desse trecho do artigo de O. Brik se intitule "a semântica rítmica".
13 Como vimos, considera que os dois elementos, ritmo e semântica (ou sintaxe da língua comum) não subsistem separadamente, mas juntos "criam uma estrutura rítmica e semântica específica, tão diferente da língua falada quanto da sucessão transracional dos sons." Assim ele opôs as duas maneiras de pensar a poesia.
14 Por um lado, Bielinski e Tolstoi, para quem o poeta primeiro pensa prosaicamente o que quer escrever e depois acrescenta uma roupagem poética mudando as palavras para obter um metro. A imagem de Saltykov-Chtchedrine aqui é oportuna: "não compreendo porque se deve caminhar sobre um fio e acocorar-se a cada três passos", tornando jocosamente evocada a suposta como tal superfluidade da forma do verso relativamente à mensagem prosaica que a sintaxe da língua comum serve. Ao contrário, Andrei Bieli, Blok e os futuristas pensavam que "no poeta aparece antes a imagem indefinida de um complexo lírico dotado de estrutura fônica e rítmica e só depois essa estrutura transracional articula-se em palavras significantes". Até a subversão da palavra em Tichitcherine, que como vimos a pretendeu substituir por sinais poéticos, um pouco como Artaud julgando a palavra inteiramente prejudicial à poesia. ("Ritmo e sintaxe", in :Toledo, org. "Teoria da Literatura, formalistas russos", Porto Alegre/RS, Globo editora, 1976)
15 Mas a convergência que Brik supõe ser o essencial da poesia, não deixa de subentender a oposição. Numa base apenas opositiva, sem fazer convergir os contrários, Otavio Paz ("Signos em Rotação") interpõe o silábico classicista italiano e o acentual do verso espanhol, somente este que teria sido retomado na vanguarda. Ou seja, oposição total entre a métrica fixa e o ritmo como expressão emotiva ou afetiva, similar à de Kristeva entre o simbólico e o semiótico.
16 Contudo, aqui seria oportuno observar que seja como for, a oposição parece portar entre o regulado e o espontâneo, quando na verdade ambos já são "escritura", no sentido de Derrida, uma álgebra ou jogo do significante. Mas mesmo Derrida estabelece a contrariedade entre por um lado, o que Kristeva considerou o conteúdo semiótico anamnésico, um passado puro, originário da forma significante, que precede, como tempo do inconsciente, ao presente da linguagem como tudo que só neste se pode recuperar. Por outro lado esse presente como o campo linguístico estrutural ou simbólico em Kristeva, fenomenológico em Derrida, aquilo que não podendo alcançar na experiência comum a forma inconsciente, a recalca como inexistente ou como o que se deve superar no desenvolvimento psíquico. A anamnese de que se trata é para ambos o meio exterior ao comum da lembrança ou da auto-reflexão, pelo qual se pode recuperar o transcendental inconsciente. Esse meio é originalmente a terapia psicanalítica e a escuta clínica em que consiste o material sobre o que se elabora a teoria psicanalítica.
17 Em Derrida essa recuperação anamnésica passa pelo conhecimento das escritas não-lineares e o que elas tem a ensinar sobre o papel não derivado mas sim essencial do significante na estruturação da linguagem. Aqui a transformação epocal, política e subjetiva decorreria da superação da fantasia do significado transcendental - quando o transcendental é na verdade o significante, e o significado é apenas o significante do significante. O fim da forma opositiva ideológica, isto é, paralógica, de fundamento e suplemento implicaria no desfazimento do preconceito hierárquico identitário, mas este "brilho além clausura", a ultrapassagem da época metafísica, não se faz apenas pelo conhecimento teórico, ele só existiria numa sociedade em que esse conhecimento estivesse entranhado numa prática generalizada.
18 Assim Derrida não chegou a afirmar a pós-modernidade, e de fato muito das oposições com que trabalha mesmo em prol da desconstrução do opositivo irredutível ao relacional não são típicas da pós-modernidade, ainda que vários pensadores dela considerem-se relacionados ao desconstrucionismo.
19 Em Kristeva, como para Derrida, trata-se de desfazer a unidade da linguagem opositiva, para mostrar que o que nela é considerado supérfluo na verdade é tão constitutivo quanto o suposto contrário. Assim a margem relativa ao centro se torna uma oposição desconstruída não por um outro contrário definível, mas pelo fato de que o oposto ao fundamento não sendo pensável, este mesmo só foi definido pela oposição metafísica, então o que subsiste não se reduz a um ou outro mas a uma marginalidade, suplementaridade ou metaforicidade ilimitadas. O polo recalcado da hierarquia se torna o infinitizado da própria possibilidade do pensável, quando se trata das oposições vigentes no campo sócio-histórico. Assim entendemos o ritmo como oposto considerado supérfluo na dicotomia do simbólico ao seu outro semiótico. Mas um movimento rítmico sendo subjacente à própria enunciação.
20 Kristeva relaciona o pólo semiótico do que designou o ritmo, em termos de um polo da subjetivação no rumo da jouissance, a um estatuto político materialista que destituiria a formulação do marxismo por ser inteiramente incoativa à concepção dialética que o hegelianismo corretamente interpretado teria sido capaz de situar. Aqui o utopismo da jouissance que dissolveu a identificação do sujeito pela estrutura do político entendido como medida comum, ultrapassou o limite psicanalítico que ao ver de Kristeva situou bem a anamnese do inconsciente mas fez dela um instrumento a serviço da clausura política-social. Assim a jouissance como a transformação subjetiva consequente a um outro uso da linguagem se torna uma prática política inantecipada.
21 Nesse sentido há uma oposição nítida também a Althusser, pois se faz retorno expressamente a Hegel, ainda que reinterpretado, como um meio não só de posicionar a semiótica como também de criticar o marxismo, ortodoxo e/ou estrutural. a lógica de que se trata seria paradoxal a toda concepção da temporalidade linear. A antítese antes da tese, como o semiótico anterior ao simbólico, não nega porém, ao que parece, uma certa teleologia. Pelo contrário, a confirma. E como podemos observar, a própria classificação de ambos como camadas constitutivas da linguagem, em vez de apenas alternativas de uso contextualizadas em gêneros da fala/texto, mantem o aproach estrutural do simbólico.
22 O simbólico não poderia ser evitado, de fato, ao ver de Kristeva, mas sim colocado como uma espécie de horizonte regulador, relativo a uma espessura da linguagem apta a transformar as relações já então politizadas pelo estruturalismo, entre política e linguagem. Seria pois preciso entender o político kristeviano, definido pelo conceito platônico de medida comum, depois a crítica ao marxismo e à estrutura do simbólico, e então o que realmente situa o Je da jouissance.
c)
Sobre o político : conceitos de Geoegologia e alteregologia
1 O artigo de Kristeva é algo confuso quanto ao conceito do político, visto que generaliza o platônico designado com "medida comum". Assim ela abstrai o sentido originário do termo, como o que se relaciona à Polis, a Cidade-Estado grega que se tipificou pela democracia ateniense e em geral como a organização social posterior ao governo da aristocracia. Como Platão era nada além de um aristocrata na oposição à democracia ateniense, traidor da cidade pela aliança da aristocracia com Sparta, é compreensível que tenha uma definição de política que abranja como legalidade a aristocracia monarquista - o que na modernidade, como desde Locke já não se pratica, tais despotismos sendo classificados como dominação ilegitimável.
2 Procedendo pois por uma oposição obsoleta, entre a liberdade subjetiva como objetivo utópico por um lado, e o político legitimado tout court como mera dominação contra o sujeito, por outro lado, a própria Kristeva performatiza uma regressão notável na consciência da legalidade. Uma regressão cuja causa é a recusa de longa data de se separar o capitalismo como neo-despotismo imperialista e a organização social democrática como aquilo que ele pretende corromper e de que é o maior inimigo. A recusa se explica. Ela permite que se continue a pensar o capitalismo como o mesmo que desenvolvimento produtivo e científico, para definir uma ideia perfeitamente oca designado "ocidente" adjetivamente construído como o oposto de "primitivo" ou subdesenvolvido na qualidade de povos antes ou "neo" colonizados, que agora servem ao capitalismo como escoamento da produção industrial europeia, mantidos a força de golpes, violências de todo tipo, o mesmo que recolonização, subtraídos do desenvolvimento local das forças produtivas.
3 Capital-imperialismo - não há outro capitalismo - significa pois operações concertadas contra a legalidade, com objetivo de dominação para reserva de mercados cativos nos países do terceiro mundo, onde os governos trabalham contra as iniciativas nacionais, econômicas e científicas, a fim de disponibilizar todos os recursos de crédito e incentivo para o capital estrangeiros, por que são governos e ideologias alteregológicas do Centro "geo-ego-lógico", ou seja, auto-definido geopoliticamente como Sujeito da História da racionalidade, agência da modernidade. A esquerda comunista sendo tão ou até mais alteregológica que a direita.
4 A regressão de que falamos não era já uma novidade. Pelo contrário, Kristeva mesma considera o fascismo como uma variante possível do logro político das vanguardas - que ela porém não conscientiza como tal. A geo-ego-logia é segmentada.
5 Como modernidade, é o braço secular do capitalismo armado, como dominação cultural provista pelas teorias do desenvolvimento como auto-posição da agência ocidental da modernidade contra a margem julgada sub-desenvolvida teleologicamente condenada a - supostamente - copiá-la, como se o "desenvolvimento" (revolução industrial) não passasse pelo imperialismo, de outro modo não havendo possivelmente "potência" alguma mas apenas economias nacionais. A modernidade é pois segmentada.
6 Os períodos de segmentação do capitalismo como modus sucessivos da interdependência que define a relação de dominação marginalizante, abrangem: após o nacionalismo romanticista como luta contra o pacto colonial escravista do absolutismo monárquico que foi o primeiro monopolismo empresarial da modernidade, o positivismo como implementação do imperialismo, e em seguida, o período rearistocratizante do capitalismo, entre o simbolismo e a vanguarda. Esse período corresponde ao neocolonialismo afro-asiático, lembrando que a conferência de Berlim para a partilha da África ocorre em 1885. O período se estende até a derrocada do nazi-fascismo em 1945. Quando se inicia o rise estruturalista e pós-estruturalista que configura um momento específico durando até o início da dessovietização e globalização atuais. Todos esses períodos configuram modos específicos da interdependência centro/margem, ou seja, modus operandi do imperialismo que é a ratio ocidentalista da modernidade como conflito político entre a dominação econômico-ideológica e a legalidade como organização social oriunda da descoberta da cultura plural pela ocasião da independência das ex-colônias, quando o homo americano já não podia portanto ser reduzido a "natureza" pois se apresenta como agente da independência política, ser de cultura.
7 Já o período da Vanguarda, foi concomitante à industrialização europeia, após o surto pós-romântico ou positivista do capitalismo inglês. Mas assim desfaz-se o mito marxista do capitalismo como oposição dialética ao modo de produção feudal, por onde conforme "A Ideologia Alemã" na Alemanha - então em pleno processo de industrialização - não passava já a história. Apenas porque na Alemanha o capitalismo revelava o que é. Ao contrário do que Marx pensava, não tão diferentemente de Weber, em termos de processo de organização social racional-legal que tem por consequência a subjetividade privada, é sim a ditadura do império (neo)-colonial conforme tipicamente o modelo prussiano.
8 Mas mesmo nessa época a Inglaterra era já apenas um império neocolonial. A posição da nobreza obnubilou a visão de Marx, mas ela não é tão móvel assim, entre a Inglaterra e a Prussia, descontando os fatos anômalos de uma nobreza francesa mais escandalosamente egoísta a ponto da cegueira, até a guilhotina, do que as demais europeias.
9 A cessação da fantasia do capitalismo como obra da burguesia esclarecida deveria começar pelo fato de que até mesmo numa moldura semelhante, de fato a agência revolucionária foi obra do pré-romantismo e não do Iluminismo. Assim como coube ao romantismo a transformação da teoria política e do contrato social de alguma ratio universal na constituição nacional culturalizada pela cientificização da História como processos conceituados pelos historiadores, não "memória". É provável que entre os simbolistas que muitos consideram, como à própria vanguarda, neoromânticos, houvesse a consciência da cessação daquela fantasia.
10 O marxismo mesmo principia a adaptar-se desde convergências anarquistas à Sorel até o humanismo de Lukacs e Gramsci. A rearistocratização do capitalismo, como introduzindo o monopolismo neocolonialista, não foi porém equacionada como o desfazimento do bloco delirante que soldara capitalismo e Estado no sádico-anal positivismo como o canto do triunfo da dominação técnica, como do industrialismo imperialista sobre a terra. Ao contrário, foi o eco na dominação cultural como metateoria desenvolvimentista, do escárnio do aristocrata agora capitalizado pelo cartel da potência, contra o capital livre do pequeno burguês. O uníssono da burla da legalidade pelo arbítrio da nobreza identitária, que só tem de suposto legitimante algum ato de guerra no longínquo "passado", alastrou-se para toda a esquerda que se tornou setorizada conforme o "passado" nobilitador que escolhesse representar, ao modo de suposta legitimação da pretensão de estar dominando por vocação própria à verdade do Homem: a raça do ariano ou qualquer outra, a comuna medieval, o judaísmo messiânico, a Grécia pré-socrático de Heidegger e do empedocleano Freud, etc. Que consequentemente alguma solução de continuidade é postulável entre as esquerdas messiânicas e o fascismo, também Kristeva já observa. Na esteira da crítica vinda dos estruturalistas ao cenário "funcionalista" totalizante, anterior a 1945, mas que curiosamente apenas permitiu um novo momento de valorização da Vanguarda.
11 Assim Kristeva se pronuncia a propósito: "... a contestação da autoridade, da consciência julgadora, da estrutura, esse assalto que o fim do século XIX e começo do XXº conheceram contra o monologismo, abriu a via à apologia de uma substância louca, violência, sexismo, exoterismo. Antes de aparecer sob o nome de Hitler e nos campos de concentração, o fascismo teve o ar de quem encontrou cumplicidades nas reações anti-monológicas: as vanguardas filosóficas e literárias aí são misturadas (Heidegger, Pound)". Ela poderia citar o futurismo italiano de Marinetti.
12 Porém não parece que o retorno da questão da pluraridade cultural, entre os neokantianos, os existencialistas e a metodologia funcional, seja por si uma vaga contestação da autoridade, antes que uma conjuntura sócio-histórica relacionável a dois fatores.
13 Primeiro, à exaustão das projeções antropológicas tecnicistas do progressismo linear positivista de que Marx e Engels são tributários como penadores afins da síntese de Morgan - que Deleuze retomou no Anti-Édipo, algo sintomático que precisa ser explicado. Essa exaustão foi consequente à introdução do trabalho de campo na Antropologia, que desmentiu o reducionismo tecnicista na cultura, pondo fim à axiomática do homem como produto do meio, e introduzindo a comprovação da autonomia tanto da psique subjetiva como da cultura.
14 Segundo, não menos importante, à conjuntura da concorrência dos impérios neocoloniais, com a Alemanha pugnando por autonomia cultural contra o positivismo cientificista que convinha ao poderio inglês. Como se sabe, o objetivo inglês de sustar o desenvolvimento alemão foi a causa da injusta primeira guerra mundial, que teve por consequência o revanchismo da nação lesada encontrando no nazismo o impeto radical que necessitava para expressar seu desejo de justiça. O anti-semitismo, a xenofobia, a propaganda do monopolismo, etc., não são criações da Alemanha ou de Hitler, apenas aí tiveram oportunidade histórica de atrair as massas. Essa atração deveu-se à temática mais que defensável, da defesa da cultura própria. Mas o que o regime realmente pretendia não era a princípio de todo visível para partidários ingênuos ou que pensavam poderem eles mesmos modularem a ideologia partidária. Assim vemos como Heidegger foi atacado e excluído da reitoria universitária alemã em Friburgo, pelo reitor de Frankfurt, o coronel Kriek que na biografia de Einstein por Clark aparece explicitando o objetivo da ciência militante na nova universidade nazista e pugnando pela cultura restrita ao conteúdo dos mitos, tantos intelectuais expurgados das fileiras do partido, etc.
14 É interessante como Julia Kristeva é exceção no tratamento desse tema, informando na biografia da judia Hannah Arendt, da ligação, extra-conjugal e depois de amizade, dela com Heidegger, assim o que torna o partidarismo deste algo complexo de se entender. O estudo de tão grande tamanho de J. P. Faye sobre isso - uma paranoia que vota toda "desconstrução da metafísica" a invenção dos próprios nazistas que assim teriam sido os modelos de um Heidegger que sem isso não teria pensado nada do que expôs, abrangendo Derrida mas excetuando Nietzsche - omite completamente qualquer menção a Arendt.
15 A segunda guerra também não foi feita para libertar judeus dos campos de concentração ou nada desse tipo, mas como reação defensiva dos países europeus quando invadidos, ou na iminência de o ser, pelas tropas nazistas.
16 Como vemos seria de fato complicado interpretar a contestação da autoridade e do juízo pelo nazismo. O que ocorre é o desvio da autoridade, de qualquer legalismo da consciência ao fascínio do ídolo populista.
17 A descoberta do inconsciente e da experiência narcísica infantil nessa época se bifurca quanto ao significado político. Por um lado, a psicanálise como ramo da psiquiatria, visando desbloquear o caminho do desenvolvimento psíquico à autonomia do sujeito como consciência da privacidade na democracia. Que porém torna a ser uma solução de compromisso entre sujeitos instintualmente hedonistas. Por outro lado, a Vanguarda e o nazi-fascismo, que podemos bem entender apenas se o componente do neocolonialismo e antropologia social correspondente não for abstraído. Pois a Vanguarda utilizou-se do mesmo material antropológico que serviu à psicanálise para definir em escala classificatória, os estágios primitivos do inconsciente na homologia onto-filogenética freudiana - pelo que estágios de mentalidade sub-desenvolvidos correspondem a etapas da experiência pré-egológica infantil, isto é, ao "inconsciente".
18 Ao contrário dessa intenção progressista mas preconceituosa, a riqueza artística das culturas julgadas arcaicas, então sendo descobertas na Europa pelo movimento do capital neocolonial afro-asiático, foi ao mesmo tempo o conteúdo da nova arte da vanguarda europeia e a matéria da elaboração das teorias recusantes do desenvolvimentismo como do capitalismo neocolonial, tecnicista escravizador. Teorias que porém serviram distopicamente à rearistocratização da sociedade contra a legalidade. Uma vez que não se desatrelava o desenvolvimento daquilo que a presunção da primeira antropologia social estabeleceu na base de uma inviabilidade da democracia primitiva.
19 O esquema de Morgan que Deleuze reatualizou, era positivista, julgava que as culturas deviam ser subprodutos do estágio do conhecimento técnico, enquanto na era da Vanguarda sabia-se já que cada sociedade era um todo de cultura independente de qualquer outra, assim não generalizável quanto a etapas da tecnicidade, não obstante manter-se o grande corte de primitivo e moderno-ocidental. Mas o esquema de Morgan permite ver o que foi conservado mesmo na época da Vanguarda: o modelo do selvagem cuja lei é apenas identitária, não abrange o Estado, o que desde Weber se designava a comunidade contrariamente à sociedade desenvolvida; do bárbaro que introduz o Estado, mas despótico; e do civilizado moderno-ocidental que tem um Estado relacionado à consciência subjetivada. Assim o Anti-Édipo pode ao mesmo tempo utilizar Morgan e Artaud, servindo ao elogio do capitalismo como o único regime "esquizofrênico" nesse sentido deleuze-guattariano da livre criação por isentar-se das codificações do desejo. Ora, a tendência contrariada para conservação do Estado, o capitalismo se recodifica a todo tempo, loucamente, nas modas identitárias que se sucedem orquestradas pelas mudanças na produção, enquanto o selvagem é uma codificação flexível, portanto não-estatal e assim pulsional, etc. Pois que que entre 1945 e a Globalização, o capitalismo que voltara a ser liberal na aparência, podia ser visto pelo viés otimista que os positivistas celebravam antes do neocolonialismo explícito. Na época da Vanguarda primitivista não podia, obviamente, mas a valorização do pulsional pré-estatal "comunitário" valia do mesmo modo.
20 Hoje a antropologia social já não considera assim, com a descoberta dos sumeriólogos e a interpretação da democracia recuando muito temporalmente na história, para preceder o imperialismo babilônico, e a interlocução ampliada com sociedades do terceiro mundo que permite recusar classificações totalizantes. Assim atribuímos Estado a todas as sociedades porque são dotadas de leis irredutíveis a costumes privados, e portanto, havendo Estados tribais anteriores a cargos centralizados, que podendo ser democráticos ou imperialistas, dependendo de qual sociedade se trata, não cabendo generalização.
21 Também conhecemos o fato de tribos terem consciência histórica, não somente mítica, as sociedades terem heterogeneidade e conflitos internos. Uma questão da subjetividade extra-ocidental já pode ser posta de modo menos dualista, mais relacionada à pluralidade, tanto do tempo e lugar como do próprio caso, o texto que se estuda - se não prejulgamos a interpretação. O taoísmo de Lao e Chuang por exemplo, é altamente subjetivado, contem uma crítica do saber-poder, e é feminilizado. Os criticismos gregos, dos sofistas democratas e depois dos céticos pirrônicos também tenderam à questão da autonomia cognoscitiva do indivíduo. Se não chegaram a uma teoria do sujeito, devemos lembrar que o próprio contexto foi transformado pelo feudalismo platônico-aristotélico na totalização religiosa das aristocracias, no Oriente médio e Ocidente, enquanto algo similar processava-e na China imperial-confucionista.
22 Ou seja, a legalidade hoje já é coextensiva a qualquer sociedade, assim como o Estado. Este enquanto legalidade não se reduz à conquista constitucional do Ocidente. E quanto a esta, como algo formalizado e teoricamente conceituado, tenho feito salientar pela análise dos textos construtivos que estão intrinsecamente dependentes dos conhecimentos a propósito do corte cultural entre terceiro e primeiro mundos. Os textos fundadores sendo, como na origem a teoria do contrato social ainda não relacionada à teoria do sujeito, como de Locke a Rousseau, e depois, já relacionado, o constitucionalismo entre Hegel, Conte e Marx, os funcionalistas weberianos e o cenário estrutural-semiótico.
23 Como podemos já aquilatar, Kristeva se relaciona ao contexto subjetivante pós-estrutural, para uma concepção da jouissance, porém, que persiste na disjunção do sujeito estruturado e gozo pulsional pré-egológico, que depende conceitualmente da oposição do Ocidente e sub-desenvolvimento. Agora a diversidade de vias que observamos entre a vanguarda e a psicanálise relativa ao inconsciente, conforme primitivista ou progressista é reencenada como oposição entre semioticismo e estruturalismo ortodoxo.
24 Aqui podemos inserir um tópico da controvérsia norte-americana. Pois Linda Nicholson questiona Judith Butler por ter considerado que o inconsciente não é por si mesmo bom ou mau, mas pode ser útil à teoria feminista. Indaga ela porém: como algo pode não ser bom ou mal mas ao mesmo tempo ser bom (para o feminismo)? Ora, de fato esse é um raciocínio pseudo-lógico, visto que mesmo a lógica clássica aristotélica conceitua irredutivelmente à coisa ou substância, a contingência qualificativa como bom ou mau. Assim a coisa realmente em si não é nem pode ser boa ou má, porque é irredutível à qualidade contingente. Ela pode vir a ser qualificada boa ou má conforme a contingência de que se trata especificamente. Se quisermos nos opor a esse modo de ver, não poderíamos fazê-lo como se estivéssemos nele demonstrando uma incongruência lógica de per se, mas teríamos que definir qual lógica estamos adotando, a clássica ou a dialética, ou se estamos politicamente recusando qualquer lógica autônoma relativamente à crítica situada.
25 Como podemos ver, o inconsciente é conceituado como tal ou tal, mas interpretado de modos variáveis quanto a como devemos aplicá-lo na contingência sócio-histórica. Uma interpretação psicanalítica ortodoxa pode não parecer tão atrativa, isto é, boa, à teoria feminista, como poderia se tornar uma interpretação relacionada aos interesses desta como Butler parece tencionar produzir como variante pós-estrutural da análise do discurso. Sobretudo, a intercessão onto-filogenética, axial à teoria do Inconsciente, deve mudar com o tempo, ao sabor das transformações epistemológicas na antropologia social que provê o material elaborável como conteúdo do desenvolvimento filogenético. Isso implica que o próprio "princípio de realidade" é histórico, isto é, mutável.
26 Podemos assim indagar se o sentido do político, relacionado bem ou mal ao impulso revolucionário em Kristeva, muda substancialmente a base epistemologicamente estabelecida já para o contexto estruturalista. Creio que não muda. Mas a interpretação é pois, bem oposta, o desenvolvimentismo como um bem para os estruturalistas, como um mal para o semioticismo kristeviano. Como vimos, para ambos, o político é epistemologicamente definido pela fantasia do Ocidente unívoco, referencial unitário da ciência, evoluindo desde os gregos e Platão especificamente como pai do conceito. Assim a tomada de posição qualitativa, ainda que para posições contrárias, é relativa a uma mesma "substância".
27 Mas como já observamos, a questão de Kristeva na transformação do objetivo político em revolucionário é a lógica dialética, por onde ela opera o retorno a Hegel conforme aos interesses de certa crítica do marxismo. Já portanto avançando sobre a questão do materialismo.
d) Materialismo e História
1 Aqui seria interessante demarcar o estado da controvérsia entre materialismo e formalismo, já tomando partido, na forma como se construiu, mas hoje esse horizonte já não necessariamente segregando a história. Não se trata pois da pretensão de se estar informando a origem, o início, o primeiro tempo da coisa. Pois um dos quesitos da polêmica princeps, por assim expressar, porta justamente sobre o preceito dos formalistas russos sobre que "os temas artísticos" e especificamente literários, transitam "de povo para povo, de classe para classe e de autor para autor", exemplificando-se com "o tema do rapto que através da comédia grega chega ate Ostrovsky". Assim o reporta Trotsky no seu artigo "
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(...) (...) (...) (...) (...) (...) (...) continua, blog em elaboração /// ....
===============7 Uma visada na internet a propósito das escritoras feministas na França e na Alemanha trouxe alguns aportes interessantes, mesmo se com escassa informação relevante. A questão mais importante a meu ver, que é a relação enunciativa, a pesquisa e problematização da linguagem, tornou-se expressa entre as alemãs, comoVerena Stefan e Ingebor Bachmann, esta que tinfluencia a própria Crista Wolff, alçada a ícone do pós-modernismo literário por Linda Hutcheon. Entre as posições opostas da já célebre Alice Schwarzer e Anne Wizorek, o feminismo se posiciona quanto à política dos refugiados de Angela Merkel. Schwarzer culpou diretamente os refugiados islâmicos, norte-africanos e outros, pelo massacre coletivo de mulheres que ocorreu em Colônia há quatro anos atrás, enquanto Anne Wizorek recusou a acusação de Schwarzer, que ao que parece não chegou a ser provada, como também a produção feminista dela como pertinente ao seu próprio percurso.
8 Enquanto nos USA a pesquisa da linguagem como locus feminista está nitidamente recalcada pelo massivo narrativismo como perspectiva autoritária não só da língua, a partir da influência de Paul de Mann e - a meu ver algo indevidamente interpretado - de Derrida. Mas também do que seria uma pressuposta psique feminina congenitamente narrativa, defendida por Carol Gilligan e Seyla Benhabib no artigo desta intitulado "O outro generalizado e o Outro concreto: a controvérsia Kohlberg-Gilligan e a teoria feminista". O artigo está inserto no volume "feminismo como crítica da modernidade"( Rio de Janeiro, Rosa dos Tempos, 1987), reunindo textos das cinco escritoras que aqui estamos examinando - a internet não informa a nacionalidade delas, não obstante Benhabib e Butler serem já conhecidas, mas parece que todas as cinco são expoentes da universidade norte-americana - e também de Iris Young, Maria Markus, o algo reacionário Isaac Balbus, e Adam Thurschwell que escreve em parceria com Drucilla Cornell. Seria interessante acrescentar que sendo Butler internacionalmente célebre na produção política pensante pela criação da Queer theory, não conheço os movimentos de seus seguidores entre nós, enquanto que de Benhabib conheço adeptos, se bem que não tanto na teoria feminista, mas entre os habermasianos que por aqui, na Globalização, tem tido grande destaque como seguidores da atual Teoria Crítica, inicialmente de Benjamin e Adorno, usualmente agrupada na chamada "Escola de Frankfurt". Assim em seu estudo sobre Habermas intitulado "A moralidade na democracia"( São Paulo, Perspectiva, 2012), Leonardo Avritzer afirma expressamente a influência de Benhabib.
9 Ora, quanto à crítica do narrativismo, torna-se pertinente se desde os anos dois mil temos conhecido a "textolinguística" que vem conquistando espaço na concepção da linguagem, não redutível à relação de palavras ou de frases, mas com um conceito inerente do texto, que se torna a unidade mínima da linguagem. Paralelamente, a teoria dos gêneros e tipos de linguagem vem se provando a mais útil. Os gêneros (carta, romance, telefonema ,etc.) sendo históricos, isto é, com listagem dos usuais mutável conforme a época, os tipos seriam estruturalmente articulações da própria intenção da fala. O que um tipo - como narrativa, injunção, dissertação, descrição, explicação (ou "exposição")- tipifica sendo um gênero, mas não porque seria o único que o gênero comporta. Uma variação tipológica é encontrável em qualquer gênero por mais característico que pareça. A narrativa não sendo obviamente algum Ur-tipe, mas também não o injuntivo (imperativo) como pensavam os estruturalistas ou o dissertativo (argumentativo) da ética do discurso universalista de Habermas e Apel. O nouveau roman se esmerou na monopolização descritiva objetiva da língua, o que se revelou operante na perspectiva da linguagem do romance, mas limitador demais de modo que se pudesse esperar por opções.
10 O pós-modernismo tem se mostrado constante naquilo que seria uma modalidade de narrativa que desnuda as próprias condições de construção. Várias tentativas de designar a essa modalidade tem sido propostas como a "meta-ficção historiográfica" de Linda Hutcheon, ou a "narrativa narcisista" de Christine Brooke-Rose. Parece-me que de fato aquilo de que se trata deveria ser designado algo já conhecido como anti-narrativa - praticada por exemplo no gênero que desde o Romantismo se pratica como o tema fantástico do duplo, um sósia ou reflexo do espelho autonomizado que desde que aparece, passa a ser o referencial das ações atribuíveis ao personagem principal.
11 Especialmente "O Duplo" de Dostoievski revela como esse deslocamento típico do gênero, das ações do personagem ao duplo que o obseda, é um procedimento anti-narrativo, pois o "quem" está atuando já não pode ser definido - o fantástico é um gênero que não fornece a explicação do fenômeno misterioso, diferente de contos de fadas ou mitos, parapsicologia, etc., onde os seres sobrenaturais ou dons de alguém explicam o haver desses fenômenos. Em Dostoievski ocorre um trecho de não-ações características do que o personagem não está fazendo, nem o seu duplo, portanto ações que o narrador lista mas como o que ele não narrará - ações que estão acontecendo na festa no interior do castelo, onde o personagem principal não foi convidado a ir, portanto nem o duplo poderia comparecer.
12 O pós-moderno tem relações ambíguas com o romantismo, ora sendo considerado um neo-romantismo literário; ora sendo, se considerarmos pós-modernas as políticas setorizadas em gênero sexual e etnia, contrário a ele, como Henry Louis Gates antagonizando Ralph Elison por ter considerado o status marginalizado como "negro" uma duplicidade em que alguém se encontra - ele é ele mesmo mas também "o negro" que o duplica como o que a sociedade lhe atribui ser.
13 Também Homi Bhabha criticou Stephen Heath por seu personagem, que tem um nome mexicano e um nome americano conforme suas personalidades emotiva ou burocrática. Porém essa crítica não atinge a literariedade do duplo fantástico que justamente não é o que explica, nem o que é explicado, mas o que não se explica e coloca a definição no status da total estranheza. Lembrando o dito jocoso de Deleuze a propósito do Universal - que não é o que explica, mas o que precisa ser explicado, contrariamente ao que a metafísica prevê - vemos que o duplo rouba toda possibilidade do Universal pensável. Tanto a metafísica quanto a anti-metafísica. Ele é um tema que problematiza o que o Romantismo descobriu propriamente como o Sujeito pensável, pois a este situa numa trama desejante que o conduz por si mesma ao Outro.
14 Enquanto O.Rank reduzira o duplo a criação de mentes paranoico-narcísicas, e Freud apenas a representação do superego, Lacan referiu-se a Hoffman e ao duplo como um tema do objeto "a", o objeto parcial do desejo relativo seja ao ouvir ou ao ver ou ao oral, anal e genital. Realmente há uma parcialidade notável no desejo do duplicado, porém é duvidoso que enquanto o outro relativo ao mesmo, o desejado seja um dos objeto a de Lacan, visto que pode, como em Dostoievski, relacionar-se a um status social que o subalterno sente ao mesmo tempo merecido e negado a si, um sentimento que na trama social só pode aflorar na base de ações neuróticas, de que o duplo se mofa como atuante perfeito, mas não próprio. Na verdade como mostrei em meu estudo sobre o tema (em blog na internet "o romantismo, el doble e o fantástico", mas está sabotado de modo que só está legível a parte inicial expondo Rank, que o texto restante se esmerava em criticar entre exposições de outros autores também criticados e minha perspectiva conceituada), o que se deveria fazer de modo a não produzir uma mistificação conceitual, é referenciar o pós-kantismo e todo cenário pensante romanticista, inclusive a psicologia de Biran, como um pensamento do sujeito que tinha obrigatoriamente uma concepção do duplo, visto que o homem estava sendo conceituado como duplo em vários aspectos inclusive já havendo o inconsciente (memória à Carus, Entausserung à Hegel, cultura à Schubert). Assim não havia apenas um conceito do duplo mas cada pensador formulava o seu, enquanto na música e nas artes o tema era explorado, e a época só poderia se entender em torno dessa concepção. Já como um gênero literário, o duplo fantástico pode não ser apenas o reflexo do misticismo na literatura - que na época era também influente na filosofia e até mesmo na ciência porque o eletromagnetismo e a evolução causaram a ruptura relativamente à ciência aufklaerung. E sim um efeito da materialidade ou autonomia literária, implicando um questionamento pertinente à especificidade de gênero textual. A propósito, hoje seria importante notar que a autonomia do gênero tem mais abrangência do que apenas a predominância do tipo poderia fazer supor. Todos os textos científicos, tese, artigo, etc., são gêneros expositivos, mas é nítido que cada ciência tem um encaminhamento próprio de exposição. Não há uma linguística neutra que pudesse legislar sobre a correção "lógica" independente da história da disciplina.
15 O deslocamento entre status e adequação ativa é portanto, pelo que vimos acima, um tema da marginalização que o pós-modernismo aprofunda, não podendo ser narrativizado justamente por que a marginalidade é a frustração do laço de propriedade do sujeito ao seu ato - como o preconceito aristotélico faz ver, ao negar que o pobre possa ser magnânimo, pois se ele tentar se mostrará mesquinho. Ao contrário do que Aristóteles supõe, nem sempre é uma questão de opção inversamente ao dever-ser, como na coesão social forçada que para alguns define a situação da sociedade colonizada, etc.
16 Também o pós-modernismo é anti-narrativo por desconstruir as outras categorias inerentes ao discurso da propriedade, como o uso irrefletido dos pronomes pessoais. A narratividade é um tema aristotélico, importado como tal ao presente por Hannah Arendt, de quem ao que parece o feminismo o herdou abstraindo contudo a proveniência antiga. Aos desdobramentos limitantes do narrativismo norte-americano atual deveremos conceituar mais à frente.
17 Na França, minha pesquisa na internet sobre escritoras atuais, revelou um destaque compreensível para as referências ao movimento feminista que situam-se conforme a uma perspectiva histórica, privilegiando o maio de 68 como núcleo formativo ou de aglutinação do movimento na forma atual. A questão é pois tanto entender como o maio de 68 catalisou o movimento feminista contemporâneo, como também o que ocorre desde então até agora em termos de rupturas ou continuidades proponíveis. 18 A revista Tel Quel, de fato, na década de 70 (2º trimestre 1974), na seção "luttes de femmes" (pg. 93 a 102) informava que o "movimento pela liberação das mulheres" deriva do maio de 68", porém aparentemente sendo "um dos raros, senão o único ramo dessa conflagração (le seul issu de cet embrasement) que não cedeu perante as diferentes crises, política, econômica, ideológica". Bem inversamente, o movimento das mulheres desde maio de 68 logrou alcançar "a escala de massa", e "reflexões interessantes sobre o papel das mulheres na sociedade e sobre sua ideologia tem sido elaboradas em conexão com Freud e Marx". Estes dois referenciais porém estavam sobredeterminados pelo foco psicanalítico, onde a relação com o marxismo parece estabelecer-se pelo viés de Althusser e seu conceito de "aparelhos ideológicos de Estado" que como instâncias socialmente constitutivas a exemplo da família, religião, escola, etc., integrariam a reprodução do capitalismo.
19 A "reprodução" como instâncias fixadoras da ideologia tal que as posições socialmente hierarquizadas eram garantidas pelos processos mesmos de identificação social dos sujeitos, sendo tão estrutural ao capitalismo como a produção econômica que se manteria "em ultima instância" como determinante porém não de modo causalmente independente da ideologia. A Tel Quel posiciona aí as mulheres como pivô decisório - a instância determinante à Althusser - mas da reprodução biológica, o que evidentemente subentende o AIE familiar althusseriano.
20 Mas assim, ao invés de uma programática ou de uma posição já decidida da mulher, a Tel Quel coloca algumas questões. Se as mulheres podem ser consideradas algo mais que ou "um simples suporte do status quo social" ou o marginalizado e o oprimido da sociedade. E se, inversamente a essa alternativa, elas podem ser consideradas em termos de jouissance, o termo lacaniano conceitualmente intraduzível para algo como a subjetividade em devir como instância da fruição. Assim a indagação pertinente sendo a propósito da "jouissance feminina - relação ao discurso, à lei, ao corpo", como o possivelmente irredutível ao papel do status quo.
21 Não se falou ali de Simone de Beauvoir, a lendária feminista da metade inicial, existencialista, do século XX, de quem Judith Butler se celebrizou por polemizar o dito proverbial ("não se nasce mulher, torna-se mulher"). As entrevistas com Marguerite Duras e Julia Kristeva na Tel Quel são bastante instrutivas sobre o movimento francês, havendo alusão valorizadora a Monique Wittig, que Butler criticou no mesmo rol de recusa à posição de Beauvoir que ela considerou cartesiana por objetivar teleologicamente o devir. Duras focalizou o tema da escritura como essencialmente feminina, se uma escritura que se possa considerar por esse termo. O que transgride o pacto da ideologia, rasura a linguagem masculina, e por isso resulta em quem escreve numa sensação de temor, como deve provir da verdadeira escritura como o que é vedado ao homem. Este só "escreve" como o porta-voz da ideologia, tendo um interesse conspícuo por teorizar sobre a escrita feminina para produzir a propósito dela a "imbecilidade teórica" como ato de legislar ou dominar.
22 A questão da escrita de mulheres é importante nesse número da Tel Quel, havendo certa convergência em torno de temas como a recusa do nome do pai, que no entanto pode resultar num início em que o nome escolhido pela escritora seja masculino como George Sand e Daniel Stern (Marie d'Agoult). Em todo caso, "as mulheres não tem nome próprio", a consciência da precariedade do nome sendo uma experiência relativamente comum de mulheres - que não foram crianças na positividade, segundo Duras, ou que só tem como nome "o olho do Cíclope" como na poesia de Wittig. A transgressão da sintaxe, à Duras, que em Monique Wittig ("Les guérillières") aparece como a exploração das lacunas que a linguagem dominadora do homem não pode preencher. Ao contrário, a plenitude da palavra, que ninguém, homem ou mulher, pode evitar, sendo a organização anti-feminina da ideologia.
23 Hoje esse tema poderia muito oportunamente ser ampliado para uma nova resistência ideológica da língua automatizada pelo personal computer de programa capitalista massificado, dirigido sem dúvida contra a facilidade da escrita, sendo fabricado com várias disfunções que obviamente restringem a escrita pessoal para canalizar o uso à reprodução da fala ideologicamente midiatizada, ao cerceamento identitário, à falsificações e anacronismos pseudo-informativos, aos instintos agressivos, ao sexismo glorificado, etc.
23 Em Nathallie Sarraut - a escritora referencial do Nouveau Roman a mesmo título que Robbe-Grillet, mas que Lucien Goldman julgou ao contrário deste apenas representante da mentalidade anterior à da objetividade a-subjetiva típica do capitalismo tardio ou monopolista - o tema das lacunas da linguagem é o mesmo que o de Wittig conforme a Tel Quel, constatando-o pela exploração na escrita de Sarraut, de "'tropismos', informes, tremidos, inatingíveis, moventes que a linguagem literária tenta recalcar (écraser) e reconduzir à ordem". Há uma concordância tácita em torno do axioma de Duras sobre que entre os homens só um louco atinge o nível da escritura feminina como axiomaticamente transgressiva da forma.
24 Essa escritura de rupturas, vazios ou brancos, conforme Julia Kristeva na entrevista a Tel Quel, é porém o que Lautréamont e Mallarmé, na introdução do modernismo, teriam trazido, como "a música nas letras" na expressão deste. Eu poderia a propósito internalizar essa ambiguidade, entre o status feminino ou histórico-literário da transgressão formal, pois de fato, em meus inícios como escritora engajada na literatura, depois da fase adolescente dos "diários" descompromissados, certamente experimentei o descentramento nominal e identitário.
25 Na verdade mesmo quando escrevia diários o sentia, visto que eu tinha consciência de escrever não como se reportasse fatos como o que hoje eu poderia classificar em termos de narradora onisciente, mas inversamente, eu tinha vontade de escrever sobre a parte dos fatos que eu não considerava totalmente compreensíveis, não porque não soubesse o que se devia pensar a propósito do comezinho, mas porque à escritura o fato emergia como opacidade, era como se eu lembrasse dessa opacidade que na linguagem comum, falada, restava imperativamente oculta.
26 Mas no começo dos anos noventa, quando o engajamento ocorreu como noção de "produção" literária, a partir do meu relacionamento com meu marido, o escritor Luis Carlos de Morais Junior, meu curso de filosofia onde ocorreu minha convergência com o pós-estruturalismo (bem antes de eu travar conhecimento com o pós-moderno, em meios daquela década), e vivências de marginalizados mais o fato de termos ido na época morar juntos numa ilha praticamente deserta na perspectiva cultural onde ele lecionou na escola pública, já vindo eu da descoberta da vanguarda tive experiências como as que encontrei referenciadas na entrevista de Duras, que afirmou considerar-se na França uma clandestina. É curioso, pois fiz naquela época, sem conhecer Duras, vinte anos depois dela, do termo "clandestinidade" o núcleo da minha nova experiência de escrever, relacionada agora não só ao "desbunde" como à estranheza das condições como uma assunção inesperada da ausência total dos pressupostos, não apenas meio lá meio cá em relação aos fatos como cognoscíveis ou opacos, e principalmente à estranheza da linguagem, que sempre quisera fazer crer não deixar nada de fora de si, mas agora parecia singularmente sem procedimentos adequados ao pensamento. Assim isso jamais significando uma descoberta da impotência da linguagem, mas ao contrário, da impotência do modo pelo qual a linguagem é cerceada ideologicamente, tanto como da escrita como essa região de produção da linguagem, em conexão com a transformação do pensamento, a partir dela mesma consistir em algo mais do que o cerceamento discursivo da ideologia identitária, entre as fantasias da reprovação destrutiva e da entronização da Cinderela, característica das opções únicas do cotidiano.
27 Assim se esta foi uma descoberta da feminilidade ou relacionada a influências literárias e conceituais, torna-se algo que não seria muito fácil decidir, mesmo sendo claro que não havia ainda uma rubrica feminista propriamente.
28 Conforme Kristeva, que segundo a Internet é casada com Ph. Sollers, escritor da vanguarda que tem um texto nesse número da Tel Quel, intitulado "Paradis", a indecidibilidade porta sobre o caráter processual, não fixado, da oposição de gênero em feminino e masculino. O que mais comodamente permite situar a vanguarda numa posição não-fálica, ao contrário da que caracteriza uma cultura do sujeito falante como mestre dos seus ditos. Pois assim o perigo que os enunciados que até aí reportamos induziria, de serem considerados apenas pré-genitais, perversos nesse sentido, se conjura. Porém a confrontação da posição não-fálica como da escrita, à posição fálica da ideologia, pode ser para atravessá-la ou para negá-la. A travessia do significante implicaria uma posição não-fálica naquele sentido de não fixada, em processo. A simples negação da posição fálica, ao contrário, constitui "um abrigo fetichista para fugir da castração", Kristeva reservando assim só a "grandes realizações literárias" a opção pela travessia, e pois a oposição ("diferenciação") de gêneros - esta que é o correlato da "castração" psicanalítica, o momento em que a criança compreende que o sexo da mãe é irredutível ao do pai, se a criança realmente acede a isso que habilita a competência intelectual da objetividade mesma.
29 Ora, Kristeva constitui assim uma posição do "sujeito da escritura" como aquele que expressa uma "verdade própria a todo sujeito", a qual é porém interdita à linguagem comum pelas "necessidades da produção e da reprodução". Essa verdade é pois da bi-sexualidade como infixação do processo de diferenciação sexual.
30 Portanto o sujeito da escritura que realmente atravessa a posição fálica sem negá-la, mas compreendendo a oposição sexual não a reduz ideologicamente ao binarismo identitário, permanecendo assim livre em seu devir, não se restringe às mulheres, mas seria abrangente dessa exploração das virtualidades da língua que se designa escritura. A exploração da linguagem é um efeito do devir, visto que a objetividade do sujeito que assumiu o significante como travessia posiciona o sentido na multiplicidade, na relação, ao contrário da substância inamovível. O sentido que a linguagem expressa é ele mesmo polissêmico, múltiplo, reversivo da fixação ideológica. Quanto à escrita das mulheres, para Kristeva ocorre primeiro que devêssemos considerar o que referenciamos nesse status. A seu ver, mulher é uma posição que a ideologia atribui à joussance mesma, "essa aparição do não-senso que multiplica os sentidos... contanto que não se fale nisso". Efetivamente conforme Lacan a mulher é o outsider da linguagem como do "simbólico", a objetividade mesma já operante como se irredutível ao "imaginário". A jouissance identitariamente feminilizada se reduz portanto ao não-sério, ao pré-científico conforme Kristeva. Ou como poderíamos ajuntar, ao "lar das emoções", conforme a expressão crítica de Agnes Heller, segundo a internet da "escola de Budapeste", ramo do marxismo lukacsiano na "Teoria Crítica", a que também pertence Gyorgy Markus, casado com Maria Márkus. Porém sendo a expressão lar das emoções a que as feministas nos USA consagraram e tem incessantemente denunciado como Heller, a instância que a ideologia atribui oposta de todo à pertinência masculina do Poder, como do político, do mundo do trabalho e da racionalidade, para mostrar que inversamente é permeada de relações políticas a exemplo do recalcamento das mulheres que a divisão mesma do lar e do trabalho performatiza.
31 Ao ver de Kristeva, contudo, bem inversamente a algumas considerações oriundas desse ramo do feminismo norte-americano e teórico-crítico, a jouissance ideológico-identitariamente feminilizada implica que o escritor e a literatura sejam considerados femininos. São as mulheres que escrevem na acomodação ideológica das atividades, por essa razão estrutural, de que as mulheres tendem a interiorizar a diferenciação sexual como prática de todo sujeito. Reproduzindo assim o binarismo do gênero ideológico-identitário, resta a opção. Ou a mulher se viriliza, como tendência "a valorizar a dominante fálica", de modo a investir-se de um papel de mestre, a partir da fixação da relação de pai e filha, dotando-se de atitudes professoral, metafísica - assim delimitando as possibilidades da filosofia - dogmático-científica, militante revolucionária, etc. Ou ocorre escolher a negação da posição fálica, o refúgio na valorização do corpo a-histórico, mudo, das sensações puramente interiores, etc. - o que poderia parecer uma crítica a certas perspectivas da literatura existencialista de Sartre e Camus, que Robbe Grillet tanto criticou como metafórica, recusante da objetividade.
32 Porém de modo algo surpreendente, para Kristeva se as mulheres tem um papel no processo em curso da história, seria por assumir uma função negativa, como recusa de tudo que é definido, assim como da provisão do sentido fixista já dado na sociedade. Mas se assim elas se tornam convenientes à opção revolucionária, logo revelam a tendência oposta de servir de bastião aos poderes estabelecidos socialmente, devido ao seu potencial de decisão sobre a procriação que implica que se identifiquem com o poder que antes rejeitaram.
33 Quanto à experiência efetiva das mulheres que escrevem, Kristeva se mostra algo indevidamente generalizadora, a meu ver, considerando ela que há uma constante da escrita feminina como narrativa da história familiar ou ficionalização visando a reconstitui a identidade. Não creio que essa atribuição seja muito atual, mas ela considera assim que se as mulheres não chegam à desconstrução da langue praticada por um Joyce, mas só a estados de suspensão ou de estesias à Virginia Wolf - também Kristeva na sua biografia de Hanna Arendt julgou haver uma incompatibilidade do feminino com o experimentalismo da linguagem não só literária mas também filosófica ou conceitual - poderia citar uma escritora, Sophie Podolski, que a surpreendeu por apresentar uma mutação. Kristeva relacionou essa mudança efetivada por Podolski à pesquisa da linguagem estrutural ligada a questões históricas e políticas de sua época. Representaria a relação já conspícua da vanguarda com o underground, mas para Kristeva apenas a escritora referenciada, como mulher, expressa essa conjunção. A meu ver poderia restar aí abrangência nada pequena das controvérsias internas à própria vanguarda, pois entre o simbolismo bem pensante de um Mallarmé, ou seu reverso nos Cantos de Maldoror à Lautreamont, e posicionamentos política e existencialmente transgressivos como de Artaud, há muito para pensar em termos do significado da Vanguarda.
34 Em todo caso, a valorização de Podolski em Kristeva se expressa como de alguém que em sua experiência social, simbólica e sexual fez do "fato de ser mulher" apenas uma oportunidade para tornar-se algo mais, "um sujeito em processo".
35 Para Drucilla Cornell e Adam Thurschwell, a negatividade da mulher como tema kristeviano, pelo que ocorre negação lacaniana do "ser" à condição feminina - eles citam Kristeva: "em nível mais profundo, porém, uma mulher não pode 'ser'; é algo que nem mesmo pertence à ordem do ser..." - é ambígua nisso pelo que, por vezes "há um resvalamento no discurso de Kristeva que pode ser interpretado como uma tentativa de identificar o feminino com o 'significado' de ser mulher". Isso, numa transição do feminino lacaniano como Outro reprimido no simbólico masculino, assim tornando-se a mulher potencialmente revolucionária por natureza e o gênero, destino. Observam assim que "não há conexão óbvia" entre o conceito de Mulher como lacanianamente "o reprimido em todos os sujeitos falantes", e "as mulheres empíricas que serão as ativistas políticas". ("Feminismo, negatividade, intersubjetividade", in "feminismo como crítica da modernidade", op. cit. p. 155 e ss.)
36 Quanto à parte inicial do argumento, a propósito da oscilação entre o ser e o não-ser, poderia ser colocado que na teoria estruturalista o inconsciente funciona como uma linguagem, e na linguística estrutural a forma da oposição não se reduz a duas presenças diferentes mas se perfaz entre a ausência e presença. O singular não tem marca alguma distintiva, mas é oposto ao plural marcado pelo "s". O fonema zero que posiciona o singular - como a mulher impensável no inconsciente por definição pré-castração, à Lacan - é portanto o conceito estruturalista do que se opõe positivamente a algo porém só ele marcado por uma presença. A ambiguidade é pois do próprio inconsciente/consciente, entre o não-ser e o ser.
37 Mas de fato Kristeva é ambígua por isso que sua posição não se restringiu ao estruturalismo de modelo linguístico, mas avançou ao pós-estruturalismo de modelo semiótico. Alhures (texto de xerox) ela mesma assinala o que opõe o simbólico e o semiótico, ao que parece oposição que ela deriva de Freud como porém um corretivo da psicanálise quanto aos pesos de valoração. O simbólico abrange a ordem do signo: nominação, sintaxe, significação, sentido, denotação, verdade, ciência, autoridade patriarcal - o que não só aqui, para Kristeva, é o que Freud falha ao privilegiar, mas na Tel Quel é o que demarca a "escuta da linguagem" de que Podolski é elogiada por ter feito, como "do seu tecido fonético, de sua articulação lógica". Naquele texto, o semiótico abrange o que é transversal e anterior ao simbólico: cora platônica, ritmo pré-socrático, jogo de palavras, não-senso, a fala do outro, o descentramento que a prática da linguagem por sua interatividade impõe como antítese à tese da linguagem enquanto pura positividade de sentido assim como o vazio oposto ao cheio, o materno, o feminino. Kristeva aí localiza o simbólico como pólo de dominação política desde Platão, pela sua vontade de negação do pólo semiótico, ambos oponíveis assim como as linguagens do pai e da mãe.
38 Também a tese de que a mãe não é a mulher antes da castração parece ambígua relativamente ao fato do complexo de Édipo que interpõe o pai como oposto da simbiose criança-mãe não ser exatamente coextensivo à castração, mas anterior. Não obstante para Lacan a ausência da mãe ser algo primário na psique visto conceber a origem arcaica do ego no complexo do desmame, quando o seio é trocado pela mamadeira e o alimento sólido. E em todo caso Kristeva prossegue a centragem na castração sem referenciar o fato de que na menina o que ocorre é a "inveja do pênis". Já na biografia de Melanie Klein que produziu, Kristeva se torna pensadora da corrente que tem relacionado a vocação politicamente democrática à "posição depressiva", oposta à posição paranoide despótica. Assim em conjunção a demais aspectos do inconsciente kleiniano que privilegia a relação da criança com o seio da mãe (inveja do seio, cisão do seio bom e mau) e nossas capacidades de internalização do feminino (algo complexo de entender já que subentende uma fase de anulação da mãe na psique infantil), demarcando uma vertente kleiniana na teoria feminista.
39 Independente da ambiguidade própria à jouissance entre o semiótico e o simbólico, como entre ausência e presença, inconsciente e consciente, realmente pode-se considerar pertinente a crítica de Cornell e Thurschwell a Kristeva, a propósito da inconsistência da relação do feminino, entre o estrutural inconsciente e o empírico político. Não há muito como provar que as mulheres sejam protagonistas naturais dos movimentos revolucionários ou que elas sejam mais propensas ao terrorismo auto-destrutivo que os homens porque o terrorismo canaliza seus exacerbados sentimentos de revolta. Não há mulheres cabeças de revoluções históricas nem exércitos revolucionários que tenham dependido delas. Independente dessa questão, poderíamos considerar certo aspecto das mudanças conceituais de Kristeva em termos de fases do seu processo de produção, em torno porém de um núcleo prospectivo das relações pensáveis entre inconsciente e feminilidade. Ao que parece, esse núcleo também abrange uma constante da linguagem relacionada à vanguarda. O pós-modernismo atacou vários pressupostos modernistas, especialmente a recusa da sintaxe e do texto, sem por isso ser redutível a um retrocesso realista, como podemos observar em demonstrações de um novo experimentalismo, agora do texto inserido na história que porém vivida na estranheza da marginalização é apenas o que se precisa construir, em Linda Hutcheon ("Poética do pós-modernismo"). Mas também o alinhamento estruturalista lacan-althusseriano tem sofrido desde os anos noventa severa oposição pela Teoria Crítica. A controvérsia, que me parece um tanto confusa no estado polêmico em que persiste, tanto que abrange o pós-estruturalismo na mesma conta do oponente da teoria crítica, gira em torno da questão da subjetividade. Ao que devemos retornar, quando tratarmos das perspectivas de Seyla Benhabib confrontadas a Judith Butler, esta que tem concentrado segundo seus críticos, o ônus paradoxal de continuadora da psicanálise e do pós-estruturalismo.
40 Quanto ao feminismo francês certamente o maio de 68 é hoje considerado o referencial do movimento na forma atual. Interessante a propósito é o site de Françoise Picq, que contem artigos referenciais ao tema, como os artigo sobre a história do feminismo e sobre a relação de sociologia e movimentos feministas.
41 Localmente, isto é, aqui no Brasil, o movimento feminista tem se mostrado muito relacionado a questões sociológicas como a violência urbana e o preconceito étnico. Algo coerente com o fato de que as estatísticas apontam o femicídio como um dos fatores preponderantes da violência cometida neste país. O que excetuando casos escandalosos como o de Colônia, já não parece um assunto corrente na literatura feminista do primeiro mundo.
42 A internalização do estereótipo da brutalidade viril da mídia pela mulher, como o magá da loura loura boxer num facebook feminista, tanto parece relacionar-se a esse contexto, como à onipresença das produções do business midiático no imaginário, substitutivamente ao cânon letrado, de modo que a super-heroína e o super-herói se tornaram referenciais correntes de adultos na Globalização. Mas sem dúvida a década passada do petismo - quando se institucionalizou a dominação info-midiática e a privatização atingiu records - contribuiu para a virilização da mulher, como limite do imaginário na posição fálica radicalizada, ter-se tornado comum.
O próprio Lula, na época do impeachment, convocava o "grelo duro" (grelo sendo o termo chulo que significa clitóris), como o que deviam ser as mulheres que o defendessem não obstante a corrupção comprovada pelos processos da lava jato contra o governo dele ou Dilma. Antes da faixa repetindo o slogan, os cartazes de protesto e os figurantes performáticos que abordavam os visitantes com mensagens petistas, há tempos o MEC (RJ) já ostentava na frente do prédio - este ícone Le Corbusier - um desenho de útero a cores metálicas bastante fálico. A linguagem do funk midiático restrito a glorificação do poderoso e à rivalidade feminina (o clássico brasileiro da luta pelo homem pela derrota da rival, tal que ambas tipificam o modelo de comportamento ou etnia, classe, etc, que se está defendendo e - conforme essa "lógica" como que "por conseguinte", atacando), apresentava moças que diziam em entrevistas que tinham raios que podiam lançar da vagina. Atualmente está na moda moças irem a festas do high society documentáveis em revistas do tipo Caras, com correntes presas na mão das quais pendem coleiras encadeadas nos pescoços de alguns rapazes sem camisa andando de quatro atrás dela, caracterizados como cachorros humanoides. À direita, já há tempos popularizou-se o que se designa feminismo às avessas, como Camile Paglia , Catherine Hakin, repetindo como se fosse uma descoberta o comezinho da ideologia sobre como deve se comportar a mulher conservadora, ou Esther Villar - quanto a esta, ao menos, não creio que não faça sentido o que propõe como o império feminino sobre o homem em O Homem Domado, mas isso não sendo qualquer novidade na teoria feminista, ao contrário do que a mídia alardeia ou ela mesma parece crer.
O que opõe a primeira e a segunda onda do feminismo sendo justamente a posição da teoria a propósito desse lugar apenas fantasiosamente poderoso da mulher, visto que ela "domina" não qualquer "homem", mas somente aquele que usa o peudo-domínio assujeitado dela - mãe, rainha do lar, reprodutora do ethos viril, "que vigiem as suas cabras que eu vou soltar meus cabritos", etc. nada além disso ou então marginalizada, presa, assassinada - como a francesa decapitada pelos colegas revolucionários porque ela exigia os direitos da mulher, e W. Reich mostrou que também na URSS frustro-se qualquer "revolução sexual" - como demagogia justificativa do status quo.
Na primeira onda - à Heloneida Studart como pretensa revolução de esquerda, mas já desde o oitocentos conforme o estudo de Benjamin sobre Baudelaire e os grupos modernizantes, ver a propósito o meu "O pós-moderno, poder, linguagem e história" (Quártica editora) - a mulher atribuída do status quo como porém apenas a mulher comum não iniciada na seita feminista que se atribuía a identidade do heroísmo modernizante civilizador como na utopia paranoicas do hermafroditismo programático eliminação da maternidade por obrigação do Estado se encarregar dos nascituros, etc. era apenas hostilizada a não mais poder, mero artigo supérfluo culpada de colaborar com a mentalidade chauvinista não obstante o quanto ela era a mão de obra do serviço doméstico e familiar; na segunda onda, quando já se compreendeu que o mercado de trabalho não muda de caracterização masculina (competitiva, suposta racional por oposição ao emotivo, etc.) e que o trabalho da dona de casa é apenas assim melhor explorado sem pagamento (pela ideologia do trabalho como o oposto do lar) ela tem sido o referencial do que se precisa compreender em termos estruturais da "sociedade" como cenário de status conflitivo, isto é, terreno da luta pelo poder chocando-se com os objetivos da democracia.
Assim Gabriela Mora notou que alguns supostos arquétipos como a dama, a pícara, a heroína romântica, se deixam reduzir à imitação de modas literárias ao invés de resultarem das "reflexões autorais fruto de vivências existenciais". Mas "algumas imagens da mulher que a literatura projetou através do tempo", a passiva, o anjo da casa, a vampira de homens, a mãe abnegada, a solteira frustrada, "podem ser relacionadas, obviamente, com as influências sociais" - tanto como também literárias. A "chave" aí, quanto à repercussão na literatura feminista, são os textos que rompem com tais cromos tradicionais, "e a análise das circunstâncias de suas origens". (Critica Feminista, apuntes sobre definiciones y problemas, texto de xerox, p. 6)
43 Também o mapa dos coletivos mostra certa correlação do movimento de mulheres com o megafavelamento, como formas de defesa e conscientização comunitária. Assim é visível alguma relação com religiões não-ocidentais, como os cultos afro-brasileiros, inter-relacionando as questões de gênero e etnia, de modo que a tópica feminina se confunde com o misticismo politeísta, relacionado a deusas, ou à idealização popular da mulher como "deusa", quando é alguém que se queira homenagear, e como seria esperável o ódio a figuras femininas contrárias ao estereótipo da "deusa" é secular no imaginário brasileiro, independente do feminismo. É provavelmente nesse contexto que devemos entender a onipresença da concepção de "sororidade" (irmandade) das mulheres entre si, nos textos de coletivos feministas brasileiros na Internet, como o objetivo ou a concepção interna ao grupo. Algo não de todo estranho à linguagem praticada internacionalmente na teoria feminista, porém assim sendo necessário situar a proveniência do uso, pois pode ter variantes relacionadas à regressão ao caráter identitário na conscientização, por aqui onipresente nas organizações de questionamento do status quo no contexto da Globalização.
43' Visto que esse caráter identitário é o "link" com o business de mídia, que usualmente só referencia o que pode tratar na base do "tipo" quidificado, não causou surpresa o fato de que após alguns dias consultando a internet a propósito de algumas escritoras feministas, constato agora que os sites oferecidos já estão "modificados", de modo que as referências se tornaram de nulo ou escasso interesse conceitual, os textos tratando as escritoras como fetiches glorificados, com grande sensacionalismo, mercadorias alcandoradas para produzir fascinação, agregando listas de nomes próprios que seriam associados a elas mas que apenas repetem os nomes conhecidos da reificação dos modelos sociais que a mídia pretende fantasiosamente estar ao mesmo tempo"impondo" como os nomes anônimos dos "universitários" ou "profissionais liberais", etc.- o que significa apenas estarem hostilizando produtores realmente independentes ou que tenham o que expressar; e refletindo o que seria a "sociedade", naturalmente apenas fantasiada pelo editor de mídia, que os associa a propaganda de mercadorias ou provedores de internet que sendo concorrente dos demais se expressa na forma da belicosidade e do fingimento gestual de "ser" superior, ser o "alto" ("consequentemente" devendo marcar o número dois, assim como tudo que vem em segundo lugar nas listas de sites, com o termo "baixo") situando as autoras como alguma espécie de gladiadores que estão servindo de espetáculo a um público ávido de agressividade e demonstrações de poder destrutivo do "outro". Isso relacionado à teoria feminista torna-se realmente risível - não fosse tão grotesco - porém nada novo. Assim podemos citar aqui oportunamente a Tel Quel: "Somos censuradas, para melhor sermos exploradas, da produção textual e teórica pelos capitalistas da edição, do inconsciente, do sentido (editores burgueses, psicanalistas revisionistas, intelectuais homossexuais masculinos)" todos esses peões da estrutura inerte "vampirizante [que] pretendem nos paternalizar, nos converter, nos identificar." Só não cremos hoje que sejam apenas homossexuais masculinos - aqui o termo não significando a prática sexual de homens, mas contextualmente, como psicanálise num dos sentidos psicanalíticos, qualquer ligação afetiva entre pessoas do mesmo sexo, aliás na Tel Quel também se considerando a solidariedade feminista como homossexualidade nesse sentido - os protagonistas do que tampouco creditamos como estrutura a mais de mera bagunça, desordem do banditismo internacional imperialista no qual não há diferença qualquer entre máfias meramente corruptas ou tachadas ilegais. Assim também já se institucionalizou nas páginas comuns e mesmo entre as notícias de sites jornalísticos anúncios de firmas de prostituição, como o "sugar baby", toda a linguagem de mídia norte-americanizada-norte-americanizante é pedófila, etc. A propósito é interessante que nos out doors de propaganda de cursos universitários pagos, haja overdose do título "formação de líderes" assim como da palavra "líder", como se qualquer sujeito que fizesse o curso tivesse pois a obrigação profissional de catar "liderados" seus não se sabe onde ou quem se prestando a isso, palavra que no entanto jamais comparece nesses cartazes.
44 Reflete também a linguagem dos movimentos feministas proeminentes na internet, a realidade da sabotagem da cultura letrada no cânon escolar. Não obstante a teoria feminista ter seus críticos de outros setores de conscientização do gênero, como lgbt ou etnias, só localmente parece ser o caso de não termos na atualidade figuras famosas feministas tanto por atuações culturais como propriamente escritoras de mercado, não restritas ao gueto acadêmico, assim como tínhamos até atuações como de Rosemary Muraro, o que é de espantar num país que teve nas duas décadas recentes um governo de esquerda. Repetindo, mesmo a produção universitária estrita a propósito do feminismo e da escrita feminina não consta no "search" internet, porque aqui não costuma ser mercatorizada ao contrário do importado por autores do primeiro mundo, Há preconceito das academias com o que é lido popularmente, ou melhor, "pelas camadas médias da população", visto que não se crê que o popular leia - para quais camadas se canalizando títulos considerados acessíveis, e um código específico de simplificação máxima do escrito pelo autor, sancionado por secretárias dos próprios editores que só publicam textos assim reescritos, a função delas sendo reescrever o texto a ser publicado como do autor, conforme as regras de um manual de texto haurido do jornalismo, habitualmente da "Folha de São Paulo". A propósito os meus livros anunciados na internet e já circulando desde antes foram publicações independentes, isto é, comprei a edição, portanto não são adulterados por secretárias ao menos até onde pude controlar os erros de editoração, como informei em meu mais recente Riqueza e Poder, a Geoegologia, que veio com erros acrescentados a grande número, que pude corrigir parcialmente - até aonde comprometia a leitura. Livro que a editora não colocou na internet, porém há minha palestra no google, Iserj, agosto 2018.
45 Mas o populismo autoritário foi a regra do petismo, ao contrário de tudo o que quiseram fazer crer os artistas internacionais do poprock que fizeram com radicalidade oposição a Bolsonaro, sem querer ouvir quem tinha a informar sobre o estado calamitoso da qualidade de vida e direitos políticos no Brasil petista. Assim é congruente que na internet a pesquisa tenha constatado várias referências de sites à "primeira onda" (centrada no mercado de trabalho) do feminismo, mas nenhuma à "segunda onda" (atual, centrada no lar das emoções) que Benhabib especialmente tem referenciado. A atuação dos lobbys contra os direitos das mulheres casadas consiste, aliás, na fetichização onipresente na propaganda do procedimento calhorda de numerar as mulheres, utilizado à náusea nestes vinte anos pelo business de mídia, indústria fonográfica, etc. A "primeira" da sílaba é então a que o esposo namorou antes do casamento, mas se o politiqueiro de plantão não consegue impedir a circulação da esposa nas lojas, etc., só por causa disso, inventa o romance da "terceira", qualquer nome que possa usar para atribuir como adultério do marido, estando ligado o lobby da numeração a todo tipo de contravenção assim como máfias de prostitutas, etc. - com cujo capital evidentemente as agências de propaganda e trusts de mídia são financiados, assim como os corruptos politiqueiros de direita e de esquerda.
46 A manobra da numeração das mulheres para anular os direitos políticos da cidadania da mulher casada "housewife" (dona da casa, responsável pelo serviço doméstico ou se for rica pelo comportamento dos serviçais) também se repete na esquerda populista para obrigar a esposa a trabalhar fora escravizando-se a patrão, câmeras de business de mídia, etc., visto que no retrocesso fascista do Brasil na globalização por mais que a mulher se arrebente de fazer faxina, lavar roupa, limpar louça, usar o ferro elétrico, cozinhar, etc., educar crianças ou escrever livros, sempre está sendo atribuída o número dois, uma vagabunda débil mental como Heloneida Studart (do PMDB, o partido sanguinário que manteve por três anos, 2016/2019, os salários dos funcionários públicos atrasados, de modo a extingui-los por inanição ou os obrigar a pagar juros absurdos a bancos) apregoa, e o povo ignorantizado repete muito ancho de ser analfabeto sindicalizado da máfia ou vendedor ambulante de contrabandeados a preço "livre de impostos".
47 O total achincalhe à mulher casada no Brasil passa naturalmente por forçar a legislação que já atribui as obrigações do marido a liberar de pensões para, como observei, obrigar a sujeitar-se a patronato ou a pseudo-líderes de sindicatos que apenas se reduzem a lavagem cerebral da corrupção e da ideologia da brutalidade. Assim desde a mídia norte-americana, onde a figura da mulher madura está barrada, para mostrarem idosos de setenta anos casando como meninas de quinze, alastra-se pelo mundo o absurdo pelo qual a mulher casada, monopolizada pela família, não teria direitos de pensão em caso de divórcio, mas a ex-namorada ou a prostituta que porventura tenha logrado levar para a cama, tem direitos de aparecerem na mídia ligadas aos nomes e imagem social dos maridos.
Gilberto Freire, que utilizava o negro etiquetado de puro infantil como símbolo da desvirginização do senhorzinho da casa grande com a crioula da senzala, utilizava tal estereótipo para marginalizar a "senhora branca" - assim a misoginia da Vanguarda regionalista (não a de Mario e Oswald, mas a que demarcou um reacionarismo linguístico realista notável) aqui empregou muito esse tema - mas se podemos atribuir tal antropologia funcionalista como de todo atrasada ou sexista, não há dúvida de que na Globalização profissionais de baixo nível utilizam tal pan-catolicismo novamente nas salas de aula a contrapelo dos avanços da antropologia com que qualquer profissional nas ciências humanas responsável teria o devir da veiculação. Aqui a história local ainda não integrou nada da antropologia do aborígine, faz-se como se o continente fosse vazio até aparecerem as "sesmarias", os "jesuítas", etc.
48 Quanto à defesa das mulheres casadas, necessita obviamente identificação dos espiões da vida doméstica, que atuam nas contas de internet, assim como dos politiqueiros que praticam ostensivamente operações anti-cidadania.
49 Aqui devemos registrar o linchamento da dona de casa Fabiane Maria de Jesus, mão de duas filhas, em São Paulo/2014, por lobby de whatssapt/internet, grupo que a caluniou como bruxa sequestradora de crianças, atacando-a na rua por portar um livro de capa preta, que no entanto era a Bíblia. Aqui reporto que de tempos em tempos os artigos que aparecem no search internet a propósito - por vezes do mesmo jornal - mudam a versão dos fatos. Não creio numa das versões da mídia de que o grupo já não estava fazendo lobby caluniador antes, apenas a confundiu com o retrato de uma criminosa que a polícia lançou na internet - cujo rosto não tinha nada a ver com o dela. Pois práticas de assédio a mulheres casadas, não chegando a linchamento mas abrangendo obter terrorismo de atendimento em lojas ou no uso das vias públicas com atacantes verbais saindo atrás delas, são usuais até que se identifique os culpados, sobretudo os líderes, por controle expresso das mensagens de whatsapp, com legislação cabível para os encarcerar. O absurdo da regressão psíquica no Brasil da globalização foi tão grande, que a redução da cidadania a horda coletiva se tipifica nisso pelo que mesmo agentes de saúde não reconhecem a "sociedade conjugal" - base da legalidade constitucional. Para agências de saúde pública, um casal mesmo morando numa cidade grande, em prédio com porteiro e vizinhos, com emprego, etc. é "isolado" - nisso repetindo terminologia de partido comunista português que considerava, erradamente na perspectiva sociológica, "isolados' famílias inteiras que no entanto eram camponeses fixados em regiões com pouca densidade demográfica. Outrossim, ao andar nas ruas a mulher visada pelos lobbistas que sabotam consultas médicas, comércio, etc., ou seja, tudo o que prove que não está isolada, também não pode meramente olhar os demais transeuntes, porque se atribui que está "paquerando", fazendo algo muito obsceno, etc. O sadismo no RJ é algo que deveria ser estudado, porém também isso pode estar orquestrado por lobbistas.
50 Grupos de lésbicas ou de mulheres que porém são aversivos ao momento atual do feminismo que pugna pela obtenção das garantias legais a todas as mulheres sem imposição de ideologias quaisquer, são também responsáveis por organização de lobbys incentivados por business de mídia esfomeado por ibope, também igrejas, dirigismos de direita americanos sabotando a educação, etc. utilizam tais práticas. Eu mesma registrei a intromissão em meu computador da foto de relações sexuais de lésbicas, que aparecia ao acionar o ícone de salvar documento em libreoffice.
51 A multiplicação de "coletivos" de mulheres na internet parece promissora da renovação cultural e resistência contra o sexismo, mas temas da subjetividade feminina são ainda recalcados, pela regressão desde os tempos petistas ao estereótipo de grupo - como por exemplo, a onipresente "cartilha" (assim intitulada) em qualquer referência local de politização à esquerda, setorizada ou não, contra a já conceituada crítica do cartilhesco na nossa pedagogia letrada recalcada pelos lobbys do populismo.
52 Mas essas cartilhas da esquerda, setorizada conforme a clientela, também oferecidas como próprias de coletivos feministas, não obstante parecerem relacionar-se aos panfletos instrutivos dos movimentos da guerrilha urbana na clandestinidade durante a ditadura militar, que instruíam popularescamente sobre o modus operandi do capitalismo, no contexto redemocratizado apenas performatizam uma prática constante das instituições na globalização, que antes era apenas característica das instituições sociais de direita ou francamente autoritárias que persistiam na ideologia colonizadora.
53 Trata-se da divisão imaginária performatizada imperativamente, pela qual a instituição, o partido, o cargo ocupado, agora o coletivo, etc., se colocam de modo invariável na posição de grupo sujeito, relativamente ao "povo" como grupo sujeitado, cliente potencial visado sempre na qualidade do ausente de cultura, o que se deve civilizar pela informação das "regras" - a palavra "costumes" jamais utilizada - da racionalidade ou da correção.
54 O grupo sujeitado também não é pensado como uma população no sentido da multiplicidade quantitativa, mas projetado como um único estereótipo ao qual se costuma nomear - a "qualidade" do nome é um fator ideológico, há tipos de nomes para grupos pobres, ricos ou que se queira apenas generalizar, essa sendo uma prática onipresente na imprensa quando fala de alguma condição de status - por exemplo, a mulher na menopausa - de que pretenda fazer a cartilha (geralmente de traços estereotipados) num artigo suposto de serviço público. A instituição e as lojas costumam agora adotar nomes de status para se identificar contra a população comum ou contra outros nomes de status - como se a cidadania fosse exposta a automatismos concorrenciais como o de firmas comerciais conforme a ideologia de que o cartel que impede a pequena empresa apenas está esmagando o adversário como o time de futebol, etc. A paranoia da identidade, como mais um aspecto do narcisismo primário generalizado por práticas de populismo politiqueiro conjugado a sabotagem social do business de mídia, alcança níveis espantosos.
A particularidade de culturas como aborígine ou negra, que trata miticamente a identidade, mas num contexto próprio, se torna mercatorizada como mais um expediente de ação de abuso contra os cidadãos. O nome próprio, o rosto atual, algum ato, como a pessoa mesma, como se não pudessem mudar ou não fosse contingente, como já reportei o nome podendo ser número no caso de pantominas orquestradas em torno de mulheres casadas, etc. O casamento de pessoa divorciada num cartório do RJ é um drama. Os noivos, no ato do casamento, e seus convidados, tem que ouvir o escrevente ler publicamente um documento onde consta o nome do ex-cônjuge do(a) divorciado(a), número da carteira de identidade e cpf. Um cartório chegou a fazer "erro" evidentemente proposital para achincalhar os noivos. Fez a noiva ler um documento onde constava os papeis que apresentou, porém onde se fazia confusão da "certidão" que a noiva apresentou , assim ameaçando-a de morte, escrevendo errado aonde deveria constar que apresentou certidão de "nascimento". Após o escrutínio da expressão dela ao constatar o erro, pegaram o papel e o rasgaram, substituindo-o.
Incomodam gente nas ruas para criar situações supostas exemplares para mostrar como elas se comportam erradamente - quando a situação não tem nada a ver com o que está suposto ser mostrado, ainda como no tempo da academia grega quando para refutar a definição do homem como bípede sem plumas se jogava um frango depenado no colo do pensador, ao invés de manter o nível da controvérsia ali onde se desenvolve, na linguagem, visto que não havia uma consciência da cisão público e privado, da autonomia das matérias, teóricas e estéticas, etc. Só que o incômodo se faz com a cooperação da cidadezinha do interior, ou filmado pela mídia, etc. Em compensação, uma autora que escreveu na internet sobre a abordagem de um policial a Jameson, quando ele tentava entrar em casa, porque ele tinha esquecido a carteira de identidade, isto é, meramente o documento da identidade civil, escreveu que os documentos civis são "amuletos", criticou a segurança pública, etc. Ou seja, não se trata de uma fase arcaica onde se possa classificar comodamente uma sociedade, mas uma regressão violenta relativamente ao que já se pode documentar há tempos da mesma sociedade, por descaso corrupto com o comportamento de contravenção, fascismo útil ao capital-imperialismo, formatação de mídia dos costumes por censura e monopolização dos meios culturais e educacionais, etc.
55 Já observei que nomes e episódios de mídia são copiados de vidas particulares para serem distorcidos como propaganda ideológica dessas firmas, o que deve ser objeto de processo público, o que muitos já fazem. Usam até mesmo material escrito roubado a computadores por procedimentos clandestinos de predação tecnológica. Panopticuns são montados nas casas, etc. - ao contrário de Foucault, não julgo que isso é básico da modernidade, ao contrário, a constituição o arrola como crime, só que o politiqueiro corrupto não pune, é preciso governo legal, objetivo que creio os movimentos feministas pós-modernos, que não visam programações ideológicas sectárias ou de partido, mas sim garantias legais às mulheres, devem ter por seu. Assim, como o que se opõe ao estado merismático da incultura, a sociedade é imaginada como apenas o reflexo da instituição, como uma vitrine da qual a instituição pode a qualquer momento extrair exemplares do bem e do mal.
56 Em geral os movimentos feministas, se tem necessariamente características intrínsecas à cultura nacional em que se organizam, podem porém ostentar algumas rubricas internacionais, como legalização do aborto. Tornando agora à questão da pós-modernidade como um locus introduzido nos anos oitenta mas que assim vem num paralelismo à controvérsia entre Teoria Crítica e Pós-estruturalismo, seria oportuno retornar à consideração em torno do feminismo francês em gera e Julia Kristeva em particular como o referencial gerativo do pós-estruturalismo na teoria feminista. Esse pólo deve ser estudado singularmente visto que o volume que estamos focalizando a propósito das teóricas americanas só tem um locus do pós-estruturalismo em Judith Butler, que não desenvolve porém temas da prospecção e transformação da linguagem. Como vimos, esses temas são axiais na produção francesa.
57 Quanto ao que examinamos da Tel Quel como uma amostragem do cenário no auge da influência pós-estrutural, podemos ter um visada do modo como repercutiu na generalidade da empreitada. A publicação de New French Feminism, de Elaine Marks e Isabelle de Courtivron, é um referencial antológico - nos termos de Mora - que fala por si. Mas uma citação de Adrienne Rich em Mora também é expressiva da mesma influência, nos rumos do que poderíamos designar uma política da linguagem: "una critica radical de la literatura de impulso feminista deberá tomar la obra, ante todo, como uns clave para vivir, para saber cómo hemos vivido hasta ahora, cómo se nos há guiado a imaginar nuestro ser, cómo nuestra lengua nos ha atrapado a la vez que nos ha libertado, y cómo podemos empezar a ver, y por lo tanto a vivir de manera nueva". A ênfase no novo é provavelmente uma rubrica que poderíamos atribuir como vindo do maio de 68 maoísta ao movimento das mulheres. Assim essa ênfase é a coordenada que nos permite entender o modo como o feminismo era então colocado num patamar de militância e mudança existencial. Conforme Gabriela Mora, "a íntima relaçaõ deste tipo de leitura com os problemas sociais conduziu Chéri Register a identificar 'crítica feminista' com 'crítica cultural'..." Enquanto Marcia Holly propugnava uma ativa militância atráves da prática crítica. E Elaine Schowalter, que entre os anos oitenta e noventa teve muita penetração como escritora no Brasil, mantem que "o feminismo toma seriamente a literatura como uma crítica da vida". (op. cit. p. 7) Contudo a essa altura talvez já fosse necessário fazer certas segmentações. Não só no próprio feminismo francês, visto que entre Wittig/Duras por um lado, e Kristeva por outro, pode não haver uma total coincidência de horizontes não obstante a convergência militante, e também assim começar a pensar as irredutibilidades que mesmo sutis de início, marcam a impossibilidade de designar como o mesmo pós-estruturalismo e pós-modernismo.
58 A retórica de Schowalter já não focaliza o novo como a Tel Quel, visto que não prolonga ou visa reatualizar o radicalismo da Vanguarda. A Teoria Crítica, assim como os inimigos do pós-moderno a exemplo de Jameson e Eagleton, não costumam fazer essa segmentação tão necessária quanto se pode ver pelo fato de que Deleuze repudiou o pós-moderno como ruptura real, e Derrida tem uma concepção de mudança temporal bastante oposta a algo assim, na Gramatologia. Enquanto Lyotard confunde um pouco os termos, vemos que o que ele defende como pós-moderno epistemologicamente é apenas o que Foucault designou propriamente a modernidade como axiomática estrutural do objeto quase-transcendental, em As palavras e as coisas.
59 Algo precisou ser abandonado, algo deve ter emergido como transformação temática, entre os tempos da Tel Quel - tão marcados pelo radicalismo do novo, como do materialismo e maoísmo, quanto na verdade apenas repetindo a vanguarda já centenária entre Mallarmé e Artaud, esquecendo que Mao fazia retorno "revolucionário" apenas à cultura milenar chinesa - e algo intitulável como pós-modernismo.
60 As contradições da Tel Quel e as questões que a leitura do artigo de Kristeva nesse número da revista (" Sujet dans le langage e pratique politique") permitem por mostram-se agora importantes à reflexão.
61 O artigo de Kristeva se elabora em torno da oposição do linguístico e do semiótico. Se esta cisão é do que procede todo pós-estruturalismo, portanto numa ruptura com o progressismo da langue lacaniana, conceituar a originalidade dos pensadores desse novo campo se faz pela definição de cada um deles a propósito do nível semiótico - a "escritura" em Derrida; a análise do discurso do saber, poder e subjetivação em Focault; a "produção desejante" com seu correlato de "memória virtual" em Deleuze. Este é portanto é uma exceção porque não se restringe à descobrir como que a camada subatômica no terreno da linguagem, aquela que está aquém do nível da palavra (ou das teorias, leis e status reportáveis independente do que os estrutura, em Foucault) e que portanto corresponderia ao modo de formação dos imperativos inconscientes. Rompe Deleuze assim com o "significante" para postular modos de signo como modalidades expressivas de territorialidades ativas ("produção" como qualquer ato conjugado a coisas no mundo). Mas sem dúvida se mantem como os demais, na margem de consideração do signo-partícula, sintaxe variável, jogo combinatório articulado a práticas corporais e afetivas.
62 Em Kristeva o semiótico é estritamente da ordem da linguagem, expresso como faixa do ritmo que permitiria pensar uma heterogênese da subjetivação.
63 A originalidade de Kristeva nisso não seria definível, já que o ritmo, como "entoação" já havia sido definido como camada originária por Tomachevski, oriundo do formalismo russo. Mas em Kristeva há de fato um novo momento, não só porque ela se coloca de modo original naquilo que vinha sendo, até o estruturalismo althusseriano, a oposição exemplar de materialismo dialético e formalismo - como permite ser visto genuinamento num artigo de Trotski contra Chlovsky.
64 Kristeva não se vota a banir Hegel do pensamento estrutural e seu desdobramento semiótico, como fazem os demais citados, e já Althusser, o ícone do estruturalismo ortodoxo, que separava até mesmo Marx de algum cromo inversor da fenomenologia hegeliana. Inversamente, ela faz retorno a Hegel. Antes mesmo de observarmos como esse novo momento da controvérsia materialismo/formalismo se especificou, devemos notar a contradição pela qual a Vanguarda é utilizada como o locus da descoberta da semiótica do ritmo, que é também aquele em que a mulher se instala como vocação revolucionária, porém a Vanguarda, como observei em meu estudo em blog "Trajetória da Vanguarda", foi bastante misógina.
65 Os ataques dos surrealistas envolvendo Artaud a mulheres como Germaine Dulac, a esposa de Chaplin e Mme. Aurel puderam ser algo relacionados ao que se designou a perseguição à "senhora palavra", conforme expressão atribuível a Baty (1921), visto que com relação a esta, ocorreu ser interrompida e ofendida num banquete por estar perorando. O "drama da palavra" em Artaud, assim como cobre Alain Virmaux (Artaud e o teatro, São Paulo, Perspectiva, 1978), realmente muito se aproxima do objetivo semiótico de Kristeva. Se bem que, conforme o livro citado, esse drama da palavra evolva por linhas de contradição manifesta, entre as propostas de destruição, conservação e transfiguração, e em Kristeva, ao contrário, não haja nada dramático mas sim uma teoria bem definida do que seria a liberação do gozo, trata-se em todo caso de recusar algo como o uso comum da palavra.
66 O paralelo de Kristeva com Artaud aqui me parece interessante, ainda que para ele a questão da palavra se coloque em função da renovação do teatro em suas relações com o script, o texto escrito, a vanguarda procedendo pela autonomia do teatro novo relativamente ao que já pudesse ser realizado pela literatura, ou apenas como uma encenação dela. Pois se trata de uma linguagem a ser acrescentada, paralela e autônoma, à "palavra falada". Nela "as palavras serão tomadas num sentido de encantamento, verdadeiramente mágico por sua foma, suas emanações sensíveis, e não somente por seu sentido". (p. 85) Em Kristeva a independência do semiótico se coloca também relativamente ao sentido.
b)
1 Nesse artigo da Tel Quel que estamos examinando, Kristeva não tangencia diretamente a questão das mulheres, além de denunciar que mesmo os novos movimentos e entre eles o das mulheres se internaliza o aparato identitário, que resulta no reacionário objetivo de "ser mulher" unicamente "com a bênção do papa se possível e contra Allende se o modo de vida estiver em causa". O artigo apenas politiza a subjetivação como iremos ver.
2 Mas se na entrevista que já reportamos da mesma revista, tampouco ela defina precisamente o rapport semiótico na escrita feminina, num certo sentido o faz ao afirmar que o termo "feminino" poderia designar "o momento de ruptura e de negatividade" que modela "a novidade de toda prática" mesmo teoremática, teórica ou científica. "Nenhum Je se coloca aí para reivindicar essa 'feminilidade' mas ela não é menos operante". O "sujeito da pesquisa (recherche) conceitual" é portanto um sujeito em processo que "rejeitando a finitude e assegurando na jouissance a vida do conceito é também um sujeito da diferenciação da contradição sexual".
3 Sendo o polo relacionado ao semiótico no artigo citado, inverso ao sujeito fixado contra o devir na substancialização do simbólico. Ao contrário, em Kristeva o nível semiótico seria aquele em que o sujeito em processo descobriria sua expressão mais própria uma vez que ao contrário do que ocorre na dimensão simbólica, o nível semiótico não se fecha numa lógica binária que frustra a intenção mesma de objetividade que a distinguiria, por se prestar a regressões como à identificação narcisista. Com efeito, Kristeva acusava já nos anos setenta, relativamente a 68, "um período de regressão: eu o definirei como uma submissão à lei e à identidade", ou seja, não uma conjugação da lei com a prática e interesses reais, visto não ser a lei o que o simbólico prometeria, a pura funcionalidade do nível publico. "O sistema premia o sujeito: ou melhor, a ele ajustamos nossa prática, quando não somos coagidos a nos deter, idiotamente (tout bêtement)".
4 Porém ao contrário do que estamos vendo hoje como o ápice do que poderia já ter sido pressentido como a regressão narcísico-identitária quanto ao que caracteriza o processo de dominação anti-democrática do capital-imperialismo, antes mesmo dele ter atingido o ponto capital da dessovietização, Kristeva pensava que a convergência de políticas de esquerda ou direita nesse sentido podia ser definida em torno do objetivo nacionalista.
5 Assim nem mesmo seu texto compreende a conjuntura como de crescimento do imperialismo. Fredrik Jameson, inimigo declarado do nacionalismo, expressa uma mesma concepção, quando "periodizando os sixties", reporta que a ruptura conspícua dos setenta em relação à década precedente poderia ser definida em termos de um abandono do terceiro mundo pelo interesse conceitual do primeiro mundo, quando já teriam sido assimiladas as influências oriundas das guerrilhas como o foquismo cubano, o maoísmo, etc., que não eram pois mais novidades.
6 Em 1974 porém a guerra do Vietnã ainda estava a pleno vapor, envolvendo toda a sociedade norte-americana - se não já pela mobilização dos jovens, como peso de negociação eleitoreira. Em meios dos anos oitenta os comunistas do mundo inteiro estavam às voltas com a questão das ditaduras militares montadas pelo planejamento imperialista, como na América Latina. Uma consulta a registros importantes em artigos dessa época mostra os pontos lacunares pelos quais os comunistas de algum modo filtravam a transição do conflito leste e oeste, como discurso de planejamento anti-comunista, a norte e sul, como realidade ostensiva do imperialismo não só como correlato das ditaduras. Mas também do cenário das guerras de descolonição ainda remanescente na África como na Namíbia onde assim como nas ditaduras se utilizavam os USA, para defender os interesses capitalistas da colonização europeia, de nazistas e neonazistas. E nos ataques bélicos dos USA a países americano-latinos que estavam podendo intencionar governos de esquerda.
7 Neste mesmo número da Tel Quel, Gunter Grass se refere a ditaduras então atuantes no primeiro mundo em Portugal, Grécia e Espanha, assim como a Leste na Tchecoslováquia, com aparato bárbaro idêntico ao que sabemos das ditaduras na América Latina e Oriente Médio. Num paralelismo com as observações na mesma revista, de Antonin Liehm sobre a URSS, as relações da Russia e seus países satélites, um pacto social em torno da exclusão dos intelectuais era pensado como a nova realidade, na qual a cooptação do mercado de trabalho serviria como automática inclusão da ideologia.
8 Esse domínio "brando" à Foucault não combina com a ditadura, mas de fato o que Gräss estava demonstrando era a substância do despostismo não como se apregoava, apenas no interesse da segurança (anti-comunista), mas como pacto contra a liberdade da cultura - o mesmo pois que vimos com Liehm. Ainda que Gräss não idealize a liberdade de opinião, caracterizando-a em termos de aptidão ao contrassenso, visto que os artistas especialmente seriam uma classe irritante, com uma mania de contrariar, ele observa que esse é o preço pela democracia como o contrário do despotismo, e a democracia mesma seria o corretivo para despotismos intra-culturais. Um Estado dos cidadãos, não o despotismo que reduz o cidadão ao Estado, defenderia pois os sujeitos de abusos de artistas tanto como de quaisquer outros, tão bem como artistas ou quaisquer outros podem, ao contrário, defender a liberdade contra o despotismo.
9 Em todo caso, assim parecia realmente estar-se isolando no primeiro mundo, como prototípico da presentness ou "desenvolvimento", um mapa funcional da hegemonia "branda". Sem precisar de ideologia, ou em outros termos, tendo-a universalizado, pois cooptando automaticamente pela assertividade do emprego e do divertimento, assim blindando-se contra a cultura crítica que não tem papel nessa dualidade, como característica do mundo atual, total abstração feita do imperialismo.
10 A própria intelectualidade dos países desenvolvidos que se batia contra o despotismo, atuou desse modo contra a resistência das nacionalidades dos países que as ditaduras estava avassalando para facultar o domínio das multinacionais do primeiro mundo. Gunter Gräss já antecipa no seu artigo da Tel Quem o que chamou da nova era - no sentido da repetição do antigo - Metternich. Que se estivesse assentado em todos os organismos a Leste e Oeste tentaria provavelmente obter o desenvolvimento da união europeia. A UE atual é com efeito um resultado, mas sim da dessovietização e do neoliberalismo econômico que inviabilizou a representação estatal dos interesses da população contra o abuso do poder econômico ou monopolismo, e como Wilson Canno observou, é um novo protecionismo.
11 Quanto propriamente ao pólo semiótico de Kristeva, devemos notar que a semelhança com Tomachevski é importante frisar, visto neste ficar expresso não se tratar do ritmo como métrica fixa, mas ao contrário, como "entoação" livre. Na imanência do formalismo russo, O. Brik já havia definido o "movimento rítmico" como algo independente do que dele se poderia derivar nos termos da métrica fixada como arte poética, mas de fato não só precede a métrica, como também "o movimento rítmico é anterior ao verso. Não podemos compreender o ritmo a partir da linha do verso; ao contrário, compreender-se-á o verso a partir do movimento rítmico." O conflito de semântica e ritmo como essência da poesia é para O. Brik relacionado ao conflito de escolas que privilegiam respectivamente o social e o formal na história da literatura. Exemplifica com o simbolismo como reação ao "verso 'social'" realista "sobrecarregado de semântica" cujo inverso absoluto é porém o que ele chama linguagem ou língua poética transracional, onde chega a haver um verdadeiro non-sens rítmico como em Derjavine e nos futuristas Klebnikov e Krutchenik, não obstante o futurismo conservasse a importância da semântica em Maiakovski - que no entanto Kristeva considerava num "duplo registro" de desestruturação do político como medida comum à Platão, pelo semiótico onde "o sujeito unário se põe em processo", não obstante considerar o fracasso individual de Maiakovski um signo do fracasso político da revolução soviética. Ela salienta que aí não demarca tanto o literário mas uma atitude nova em relação à clausura (clôture) sócio-política. Romper com o ato político comunitário nos termos de um estatuto do presente para evocar o futuro anterior, que pela anamnese da camada originária da linguagem apelaria a uma utopia que a tese simbólica recalca.
12 Mas como vimos, para Brik trata-se mais que de poética, da consistência da linguagem, assim ecoando o conceito de entoação de Tomachevski. Brik considera o ritmo portanto numa oposição ao semântico que na literatura se limitaria a explorar o sistema das curvas de intensidade da língua comum e que seria funcional a épocas de mudança histórica, quando se quer expressar realidades novas para as quais a linguagem poética anterior não tinha antevisão ou qualquer referência útil. Mas sua concepção é que uma recusa total da semântica, como poesia transracional radical à que chegou Titcherine, na qual a palavra se decompõe em sons, e mesmo estes em signos quaisquer evocando ritmos correspondentes, não se mantem no quadro da língua poética que é um campo de conflito entre o non-sens e a semântica quotidiana. Por outro lado, a evolução de Puchkin seria exemplar, pelo que este poderia ser considerado, contrariamente a um violador das tradições estéticas como se lhe atribuiu, um mestre da harmonia clássica. Puchkin vindo da tendência estritamente semântica representada por Nekrassov, na fase tardia desligando-se dela para subordinar o sentido ao ritmo, mas com um momento de maturidade ou plenitude entre ambos no qual soube combinar as duas exigências, da estética da poesia e da construção semântica. Isso explicaria porque Puchkin e atrai involuntariamente todos os pesquisadores do verso russo. É interessante que o título desse trecho do artigo de O. Brik se intitule "a semântica rítmica".
13 Como vimos, considera que os dois elementos, ritmo e semântica (ou sintaxe da língua comum) não subsistem separadamente, mas juntos "criam uma estrutura rítmica e semântica específica, tão diferente da língua falada quanto da sucessão transracional dos sons." Assim ele opôs as duas maneiras de pensar a poesia.
14 Por um lado, Bielinski e Tolstoi, para quem o poeta primeiro pensa prosaicamente o que quer escrever e depois acrescenta uma roupagem poética mudando as palavras para obter um metro. A imagem de Saltykov-Chtchedrine aqui é oportuna: "não compreendo porque se deve caminhar sobre um fio e acocorar-se a cada três passos", tornando jocosamente evocada a suposta como tal superfluidade da forma do verso relativamente à mensagem prosaica que a sintaxe da língua comum serve. Ao contrário, Andrei Bieli, Blok e os futuristas pensavam que "no poeta aparece antes a imagem indefinida de um complexo lírico dotado de estrutura fônica e rítmica e só depois essa estrutura transracional articula-se em palavras significantes". Até a subversão da palavra em Tichitcherine, que como vimos a pretendeu substituir por sinais poéticos, um pouco como Artaud julgando a palavra inteiramente prejudicial à poesia. ("Ritmo e sintaxe", in :Toledo, org. "Teoria da Literatura, formalistas russos", Porto Alegre/RS, Globo editora, 1976)
15 Mas a convergência que Brik supõe ser o essencial da poesia, não deixa de subentender a oposição. Numa base apenas opositiva, sem fazer convergir os contrários, Otavio Paz ("Signos em Rotação") interpõe o silábico classicista italiano e o acentual do verso espanhol, somente este que teria sido retomado na vanguarda. Ou seja, oposição total entre a métrica fixa e o ritmo como expressão emotiva ou afetiva, similar à de Kristeva entre o simbólico e o semiótico.
16 Contudo, aqui seria oportuno observar que seja como for, a oposição parece portar entre o regulado e o espontâneo, quando na verdade ambos já são "escritura", no sentido de Derrida, uma álgebra ou jogo do significante. Mas mesmo Derrida estabelece a contrariedade entre por um lado, o que Kristeva considerou o conteúdo semiótico anamnésico, um passado puro, originário da forma significante, que precede, como tempo do inconsciente, ao presente da linguagem como tudo que só neste se pode recuperar. Por outro lado esse presente como o campo linguístico estrutural ou simbólico em Kristeva, fenomenológico em Derrida, aquilo que não podendo alcançar na experiência comum a forma inconsciente, a recalca como inexistente ou como o que se deve superar no desenvolvimento psíquico. A anamnese de que se trata é para ambos o meio exterior ao comum da lembrança ou da auto-reflexão, pelo qual se pode recuperar o transcendental inconsciente. Esse meio é originalmente a terapia psicanalítica e a escuta clínica em que consiste o material sobre o que se elabora a teoria psicanalítica.
17 Em Derrida essa recuperação anamnésica passa pelo conhecimento das escritas não-lineares e o que elas tem a ensinar sobre o papel não derivado mas sim essencial do significante na estruturação da linguagem. Aqui a transformação epocal, política e subjetiva decorreria da superação da fantasia do significado transcendental - quando o transcendental é na verdade o significante, e o significado é apenas o significante do significante. O fim da forma opositiva ideológica, isto é, paralógica, de fundamento e suplemento implicaria no desfazimento do preconceito hierárquico identitário, mas este "brilho além clausura", a ultrapassagem da época metafísica, não se faz apenas pelo conhecimento teórico, ele só existiria numa sociedade em que esse conhecimento estivesse entranhado numa prática generalizada.
18 Assim Derrida não chegou a afirmar a pós-modernidade, e de fato muito das oposições com que trabalha mesmo em prol da desconstrução do opositivo irredutível ao relacional não são típicas da pós-modernidade, ainda que vários pensadores dela considerem-se relacionados ao desconstrucionismo.
19 Em Kristeva, como para Derrida, trata-se de desfazer a unidade da linguagem opositiva, para mostrar que o que nela é considerado supérfluo na verdade é tão constitutivo quanto o suposto contrário. Assim a margem relativa ao centro se torna uma oposição desconstruída não por um outro contrário definível, mas pelo fato de que o oposto ao fundamento não sendo pensável, este mesmo só foi definido pela oposição metafísica, então o que subsiste não se reduz a um ou outro mas a uma marginalidade, suplementaridade ou metaforicidade ilimitadas. O polo recalcado da hierarquia se torna o infinitizado da própria possibilidade do pensável, quando se trata das oposições vigentes no campo sócio-histórico. Assim entendemos o ritmo como oposto considerado supérfluo na dicotomia do simbólico ao seu outro semiótico. Mas um movimento rítmico sendo subjacente à própria enunciação.
20 Kristeva relaciona o pólo semiótico do que designou o ritmo, em termos de um polo da subjetivação no rumo da jouissance, a um estatuto político materialista que destituiria a formulação do marxismo por ser inteiramente incoativa à concepção dialética que o hegelianismo corretamente interpretado teria sido capaz de situar. Aqui o utopismo da jouissance que dissolveu a identificação do sujeito pela estrutura do político entendido como medida comum, ultrapassou o limite psicanalítico que ao ver de Kristeva situou bem a anamnese do inconsciente mas fez dela um instrumento a serviço da clausura política-social. Assim a jouissance como a transformação subjetiva consequente a um outro uso da linguagem se torna uma prática política inantecipada.
21 Nesse sentido há uma oposição nítida também a Althusser, pois se faz retorno expressamente a Hegel, ainda que reinterpretado, como um meio não só de posicionar a semiótica como também de criticar o marxismo, ortodoxo e/ou estrutural. a lógica de que se trata seria paradoxal a toda concepção da temporalidade linear. A antítese antes da tese, como o semiótico anterior ao simbólico, não nega porém, ao que parece, uma certa teleologia. Pelo contrário, a confirma. E como podemos observar, a própria classificação de ambos como camadas constitutivas da linguagem, em vez de apenas alternativas de uso contextualizadas em gêneros da fala/texto, mantem o aproach estrutural do simbólico.
22 O simbólico não poderia ser evitado, de fato, ao ver de Kristeva, mas sim colocado como uma espécie de horizonte regulador, relativo a uma espessura da linguagem apta a transformar as relações já então politizadas pelo estruturalismo, entre política e linguagem. Seria pois preciso entender o político kristeviano, definido pelo conceito platônico de medida comum, depois a crítica ao marxismo e à estrutura do simbólico, e então o que realmente situa o Je da jouissance.
c)
Sobre o político : conceitos de Geoegologia e alteregologia
1 O artigo de Kristeva é algo confuso quanto ao conceito do político, visto que generaliza o platônico designado com "medida comum". Assim ela abstrai o sentido originário do termo, como o que se relaciona à Polis, a Cidade-Estado grega que se tipificou pela democracia ateniense e em geral como a organização social posterior ao governo da aristocracia. Como Platão era nada além de um aristocrata na oposição à democracia ateniense, traidor da cidade pela aliança da aristocracia com Sparta, é compreensível que tenha uma definição de política que abranja como legalidade a aristocracia monarquista - o que na modernidade, como desde Locke já não se pratica, tais despotismos sendo classificados como dominação ilegitimável.
2 Procedendo pois por uma oposição obsoleta, entre a liberdade subjetiva como objetivo utópico por um lado, e o político legitimado tout court como mera dominação contra o sujeito, por outro lado, a própria Kristeva performatiza uma regressão notável na consciência da legalidade. Uma regressão cuja causa é a recusa de longa data de se separar o capitalismo como neo-despotismo imperialista e a organização social democrática como aquilo que ele pretende corromper e de que é o maior inimigo. A recusa se explica. Ela permite que se continue a pensar o capitalismo como o mesmo que desenvolvimento produtivo e científico, para definir uma ideia perfeitamente oca designado "ocidente" adjetivamente construído como o oposto de "primitivo" ou subdesenvolvido na qualidade de povos antes ou "neo" colonizados, que agora servem ao capitalismo como escoamento da produção industrial europeia, mantidos a força de golpes, violências de todo tipo, o mesmo que recolonização, subtraídos do desenvolvimento local das forças produtivas.
3 Capital-imperialismo - não há outro capitalismo - significa pois operações concertadas contra a legalidade, com objetivo de dominação para reserva de mercados cativos nos países do terceiro mundo, onde os governos trabalham contra as iniciativas nacionais, econômicas e científicas, a fim de disponibilizar todos os recursos de crédito e incentivo para o capital estrangeiros, por que são governos e ideologias alteregológicas do Centro "geo-ego-lógico", ou seja, auto-definido geopoliticamente como Sujeito da História da racionalidade, agência da modernidade. A esquerda comunista sendo tão ou até mais alteregológica que a direita.
4 A regressão de que falamos não era já uma novidade. Pelo contrário, Kristeva mesma considera o fascismo como uma variante possível do logro político das vanguardas - que ela porém não conscientiza como tal. A geo-ego-logia é segmentada.
5 Como modernidade, é o braço secular do capitalismo armado, como dominação cultural provista pelas teorias do desenvolvimento como auto-posição da agência ocidental da modernidade contra a margem julgada sub-desenvolvida teleologicamente condenada a - supostamente - copiá-la, como se o "desenvolvimento" (revolução industrial) não passasse pelo imperialismo, de outro modo não havendo possivelmente "potência" alguma mas apenas economias nacionais. A modernidade é pois segmentada.
6 Os períodos de segmentação do capitalismo como modus sucessivos da interdependência que define a relação de dominação marginalizante, abrangem: após o nacionalismo romanticista como luta contra o pacto colonial escravista do absolutismo monárquico que foi o primeiro monopolismo empresarial da modernidade, o positivismo como implementação do imperialismo, e em seguida, o período rearistocratizante do capitalismo, entre o simbolismo e a vanguarda. Esse período corresponde ao neocolonialismo afro-asiático, lembrando que a conferência de Berlim para a partilha da África ocorre em 1885. O período se estende até a derrocada do nazi-fascismo em 1945. Quando se inicia o rise estruturalista e pós-estruturalista que configura um momento específico durando até o início da dessovietização e globalização atuais. Todos esses períodos configuram modos específicos da interdependência centro/margem, ou seja, modus operandi do imperialismo que é a ratio ocidentalista da modernidade como conflito político entre a dominação econômico-ideológica e a legalidade como organização social oriunda da descoberta da cultura plural pela ocasião da independência das ex-colônias, quando o homo americano já não podia portanto ser reduzido a "natureza" pois se apresenta como agente da independência política, ser de cultura.
7 Já o período da Vanguarda, foi concomitante à industrialização europeia, após o surto pós-romântico ou positivista do capitalismo inglês. Mas assim desfaz-se o mito marxista do capitalismo como oposição dialética ao modo de produção feudal, por onde conforme "A Ideologia Alemã" na Alemanha - então em pleno processo de industrialização - não passava já a história. Apenas porque na Alemanha o capitalismo revelava o que é. Ao contrário do que Marx pensava, não tão diferentemente de Weber, em termos de processo de organização social racional-legal que tem por consequência a subjetividade privada, é sim a ditadura do império (neo)-colonial conforme tipicamente o modelo prussiano.
8 Mas mesmo nessa época a Inglaterra era já apenas um império neocolonial. A posição da nobreza obnubilou a visão de Marx, mas ela não é tão móvel assim, entre a Inglaterra e a Prussia, descontando os fatos anômalos de uma nobreza francesa mais escandalosamente egoísta a ponto da cegueira, até a guilhotina, do que as demais europeias.
9 A cessação da fantasia do capitalismo como obra da burguesia esclarecida deveria começar pelo fato de que até mesmo numa moldura semelhante, de fato a agência revolucionária foi obra do pré-romantismo e não do Iluminismo. Assim como coube ao romantismo a transformação da teoria política e do contrato social de alguma ratio universal na constituição nacional culturalizada pela cientificização da História como processos conceituados pelos historiadores, não "memória". É provável que entre os simbolistas que muitos consideram, como à própria vanguarda, neoromânticos, houvesse a consciência da cessação daquela fantasia.
10 O marxismo mesmo principia a adaptar-se desde convergências anarquistas à Sorel até o humanismo de Lukacs e Gramsci. A rearistocratização do capitalismo, como introduzindo o monopolismo neocolonialista, não foi porém equacionada como o desfazimento do bloco delirante que soldara capitalismo e Estado no sádico-anal positivismo como o canto do triunfo da dominação técnica, como do industrialismo imperialista sobre a terra. Ao contrário, foi o eco na dominação cultural como metateoria desenvolvimentista, do escárnio do aristocrata agora capitalizado pelo cartel da potência, contra o capital livre do pequeno burguês. O uníssono da burla da legalidade pelo arbítrio da nobreza identitária, que só tem de suposto legitimante algum ato de guerra no longínquo "passado", alastrou-se para toda a esquerda que se tornou setorizada conforme o "passado" nobilitador que escolhesse representar, ao modo de suposta legitimação da pretensão de estar dominando por vocação própria à verdade do Homem: a raça do ariano ou qualquer outra, a comuna medieval, o judaísmo messiânico, a Grécia pré-socrático de Heidegger e do empedocleano Freud, etc. Que consequentemente alguma solução de continuidade é postulável entre as esquerdas messiânicas e o fascismo, também Kristeva já observa. Na esteira da crítica vinda dos estruturalistas ao cenário "funcionalista" totalizante, anterior a 1945, mas que curiosamente apenas permitiu um novo momento de valorização da Vanguarda.
11 Assim Kristeva se pronuncia a propósito: "... a contestação da autoridade, da consciência julgadora, da estrutura, esse assalto que o fim do século XIX e começo do XXº conheceram contra o monologismo, abriu a via à apologia de uma substância louca, violência, sexismo, exoterismo. Antes de aparecer sob o nome de Hitler e nos campos de concentração, o fascismo teve o ar de quem encontrou cumplicidades nas reações anti-monológicas: as vanguardas filosóficas e literárias aí são misturadas (Heidegger, Pound)". Ela poderia citar o futurismo italiano de Marinetti.
12 Porém não parece que o retorno da questão da pluraridade cultural, entre os neokantianos, os existencialistas e a metodologia funcional, seja por si uma vaga contestação da autoridade, antes que uma conjuntura sócio-histórica relacionável a dois fatores.
13 Primeiro, à exaustão das projeções antropológicas tecnicistas do progressismo linear positivista de que Marx e Engels são tributários como penadores afins da síntese de Morgan - que Deleuze retomou no Anti-Édipo, algo sintomático que precisa ser explicado. Essa exaustão foi consequente à introdução do trabalho de campo na Antropologia, que desmentiu o reducionismo tecnicista na cultura, pondo fim à axiomática do homem como produto do meio, e introduzindo a comprovação da autonomia tanto da psique subjetiva como da cultura.
14 Segundo, não menos importante, à conjuntura da concorrência dos impérios neocoloniais, com a Alemanha pugnando por autonomia cultural contra o positivismo cientificista que convinha ao poderio inglês. Como se sabe, o objetivo inglês de sustar o desenvolvimento alemão foi a causa da injusta primeira guerra mundial, que teve por consequência o revanchismo da nação lesada encontrando no nazismo o impeto radical que necessitava para expressar seu desejo de justiça. O anti-semitismo, a xenofobia, a propaganda do monopolismo, etc., não são criações da Alemanha ou de Hitler, apenas aí tiveram oportunidade histórica de atrair as massas. Essa atração deveu-se à temática mais que defensável, da defesa da cultura própria. Mas o que o regime realmente pretendia não era a princípio de todo visível para partidários ingênuos ou que pensavam poderem eles mesmos modularem a ideologia partidária. Assim vemos como Heidegger foi atacado e excluído da reitoria universitária alemã em Friburgo, pelo reitor de Frankfurt, o coronel Kriek que na biografia de Einstein por Clark aparece explicitando o objetivo da ciência militante na nova universidade nazista e pugnando pela cultura restrita ao conteúdo dos mitos, tantos intelectuais expurgados das fileiras do partido, etc.
14 É interessante como Julia Kristeva é exceção no tratamento desse tema, informando na biografia da judia Hannah Arendt, da ligação, extra-conjugal e depois de amizade, dela com Heidegger, assim o que torna o partidarismo deste algo complexo de se entender. O estudo de tão grande tamanho de J. P. Faye sobre isso - uma paranoia que vota toda "desconstrução da metafísica" a invenção dos próprios nazistas que assim teriam sido os modelos de um Heidegger que sem isso não teria pensado nada do que expôs, abrangendo Derrida mas excetuando Nietzsche - omite completamente qualquer menção a Arendt.
15 A segunda guerra também não foi feita para libertar judeus dos campos de concentração ou nada desse tipo, mas como reação defensiva dos países europeus quando invadidos, ou na iminência de o ser, pelas tropas nazistas.
16 Como vemos seria de fato complicado interpretar a contestação da autoridade e do juízo pelo nazismo. O que ocorre é o desvio da autoridade, de qualquer legalismo da consciência ao fascínio do ídolo populista.
17 A descoberta do inconsciente e da experiência narcísica infantil nessa época se bifurca quanto ao significado político. Por um lado, a psicanálise como ramo da psiquiatria, visando desbloquear o caminho do desenvolvimento psíquico à autonomia do sujeito como consciência da privacidade na democracia. Que porém torna a ser uma solução de compromisso entre sujeitos instintualmente hedonistas. Por outro lado, a Vanguarda e o nazi-fascismo, que podemos bem entender apenas se o componente do neocolonialismo e antropologia social correspondente não for abstraído. Pois a Vanguarda utilizou-se do mesmo material antropológico que serviu à psicanálise para definir em escala classificatória, os estágios primitivos do inconsciente na homologia onto-filogenética freudiana - pelo que estágios de mentalidade sub-desenvolvidos correspondem a etapas da experiência pré-egológica infantil, isto é, ao "inconsciente".
18 Ao contrário dessa intenção progressista mas preconceituosa, a riqueza artística das culturas julgadas arcaicas, então sendo descobertas na Europa pelo movimento do capital neocolonial afro-asiático, foi ao mesmo tempo o conteúdo da nova arte da vanguarda europeia e a matéria da elaboração das teorias recusantes do desenvolvimentismo como do capitalismo neocolonial, tecnicista escravizador. Teorias que porém serviram distopicamente à rearistocratização da sociedade contra a legalidade. Uma vez que não se desatrelava o desenvolvimento daquilo que a presunção da primeira antropologia social estabeleceu na base de uma inviabilidade da democracia primitiva.
19 O esquema de Morgan que Deleuze reatualizou, era positivista, julgava que as culturas deviam ser subprodutos do estágio do conhecimento técnico, enquanto na era da Vanguarda sabia-se já que cada sociedade era um todo de cultura independente de qualquer outra, assim não generalizável quanto a etapas da tecnicidade, não obstante manter-se o grande corte de primitivo e moderno-ocidental. Mas o esquema de Morgan permite ver o que foi conservado mesmo na época da Vanguarda: o modelo do selvagem cuja lei é apenas identitária, não abrange o Estado, o que desde Weber se designava a comunidade contrariamente à sociedade desenvolvida; do bárbaro que introduz o Estado, mas despótico; e do civilizado moderno-ocidental que tem um Estado relacionado à consciência subjetivada. Assim o Anti-Édipo pode ao mesmo tempo utilizar Morgan e Artaud, servindo ao elogio do capitalismo como o único regime "esquizofrênico" nesse sentido deleuze-guattariano da livre criação por isentar-se das codificações do desejo. Ora, a tendência contrariada para conservação do Estado, o capitalismo se recodifica a todo tempo, loucamente, nas modas identitárias que se sucedem orquestradas pelas mudanças na produção, enquanto o selvagem é uma codificação flexível, portanto não-estatal e assim pulsional, etc. Pois que que entre 1945 e a Globalização, o capitalismo que voltara a ser liberal na aparência, podia ser visto pelo viés otimista que os positivistas celebravam antes do neocolonialismo explícito. Na época da Vanguarda primitivista não podia, obviamente, mas a valorização do pulsional pré-estatal "comunitário" valia do mesmo modo.
20 Hoje a antropologia social já não considera assim, com a descoberta dos sumeriólogos e a interpretação da democracia recuando muito temporalmente na história, para preceder o imperialismo babilônico, e a interlocução ampliada com sociedades do terceiro mundo que permite recusar classificações totalizantes. Assim atribuímos Estado a todas as sociedades porque são dotadas de leis irredutíveis a costumes privados, e portanto, havendo Estados tribais anteriores a cargos centralizados, que podendo ser democráticos ou imperialistas, dependendo de qual sociedade se trata, não cabendo generalização.
21 Também conhecemos o fato de tribos terem consciência histórica, não somente mítica, as sociedades terem heterogeneidade e conflitos internos. Uma questão da subjetividade extra-ocidental já pode ser posta de modo menos dualista, mais relacionada à pluralidade, tanto do tempo e lugar como do próprio caso, o texto que se estuda - se não prejulgamos a interpretação. O taoísmo de Lao e Chuang por exemplo, é altamente subjetivado, contem uma crítica do saber-poder, e é feminilizado. Os criticismos gregos, dos sofistas democratas e depois dos céticos pirrônicos também tenderam à questão da autonomia cognoscitiva do indivíduo. Se não chegaram a uma teoria do sujeito, devemos lembrar que o próprio contexto foi transformado pelo feudalismo platônico-aristotélico na totalização religiosa das aristocracias, no Oriente médio e Ocidente, enquanto algo similar processava-e na China imperial-confucionista.
22 Ou seja, a legalidade hoje já é coextensiva a qualquer sociedade, assim como o Estado. Este enquanto legalidade não se reduz à conquista constitucional do Ocidente. E quanto a esta, como algo formalizado e teoricamente conceituado, tenho feito salientar pela análise dos textos construtivos que estão intrinsecamente dependentes dos conhecimentos a propósito do corte cultural entre terceiro e primeiro mundos. Os textos fundadores sendo, como na origem a teoria do contrato social ainda não relacionada à teoria do sujeito, como de Locke a Rousseau, e depois, já relacionado, o constitucionalismo entre Hegel, Conte e Marx, os funcionalistas weberianos e o cenário estrutural-semiótico.
23 Como podemos já aquilatar, Kristeva se relaciona ao contexto subjetivante pós-estrutural, para uma concepção da jouissance, porém, que persiste na disjunção do sujeito estruturado e gozo pulsional pré-egológico, que depende conceitualmente da oposição do Ocidente e sub-desenvolvimento. Agora a diversidade de vias que observamos entre a vanguarda e a psicanálise relativa ao inconsciente, conforme primitivista ou progressista é reencenada como oposição entre semioticismo e estruturalismo ortodoxo.
24 Aqui podemos inserir um tópico da controvérsia norte-americana. Pois Linda Nicholson questiona Judith Butler por ter considerado que o inconsciente não é por si mesmo bom ou mau, mas pode ser útil à teoria feminista. Indaga ela porém: como algo pode não ser bom ou mal mas ao mesmo tempo ser bom (para o feminismo)? Ora, de fato esse é um raciocínio pseudo-lógico, visto que mesmo a lógica clássica aristotélica conceitua irredutivelmente à coisa ou substância, a contingência qualificativa como bom ou mau. Assim a coisa realmente em si não é nem pode ser boa ou má, porque é irredutível à qualidade contingente. Ela pode vir a ser qualificada boa ou má conforme a contingência de que se trata especificamente. Se quisermos nos opor a esse modo de ver, não poderíamos fazê-lo como se estivéssemos nele demonstrando uma incongruência lógica de per se, mas teríamos que definir qual lógica estamos adotando, a clássica ou a dialética, ou se estamos politicamente recusando qualquer lógica autônoma relativamente à crítica situada.
25 Como podemos ver, o inconsciente é conceituado como tal ou tal, mas interpretado de modos variáveis quanto a como devemos aplicá-lo na contingência sócio-histórica. Uma interpretação psicanalítica ortodoxa pode não parecer tão atrativa, isto é, boa, à teoria feminista, como poderia se tornar uma interpretação relacionada aos interesses desta como Butler parece tencionar produzir como variante pós-estrutural da análise do discurso. Sobretudo, a intercessão onto-filogenética, axial à teoria do Inconsciente, deve mudar com o tempo, ao sabor das transformações epistemológicas na antropologia social que provê o material elaborável como conteúdo do desenvolvimento filogenético. Isso implica que o próprio "princípio de realidade" é histórico, isto é, mutável.
26 Podemos assim indagar se o sentido do político, relacionado bem ou mal ao impulso revolucionário em Kristeva, muda substancialmente a base epistemologicamente estabelecida já para o contexto estruturalista. Creio que não muda. Mas a interpretação é pois, bem oposta, o desenvolvimentismo como um bem para os estruturalistas, como um mal para o semioticismo kristeviano. Como vimos, para ambos, o político é epistemologicamente definido pela fantasia do Ocidente unívoco, referencial unitário da ciência, evoluindo desde os gregos e Platão especificamente como pai do conceito. Assim a tomada de posição qualitativa, ainda que para posições contrárias, é relativa a uma mesma "substância".
27 Mas como já observamos, a questão de Kristeva na transformação do objetivo político em revolucionário é a lógica dialética, por onde ela opera o retorno a Hegel conforme aos interesses de certa crítica do marxismo. Já portanto avançando sobre a questão do materialismo.
d) Materialismo e História
1 Aqui seria interessante demarcar o estado da controvérsia entre materialismo e formalismo, já tomando partido, na forma como se construiu, mas hoje esse horizonte já não necessariamente segregando a história. Não se trata pois da pretensão de se estar informando a origem, o início, o primeiro tempo da coisa. Pois um dos quesitos da polêmica princeps, por assim expressar, porta justamente sobre o preceito dos formalistas russos sobre que "os temas artísticos" e especificamente literários, transitam "de povo para povo, de classe para classe e de autor para autor", exemplificando-se com "o tema do rapto que através da comédia grega chega ate Ostrovsky". Assim o reporta Trotsky no seu artigo "
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(...) (...) (...) (...) (...) (...) (...) continua, blog em elaboração /// ....
este blog denuncia lobbis anti-femininos atuando nas favelas, com pixação de muros de subúrbio "favelado x madame" - para assim isentarem da mera noção de "o capitalista" que os faveliza, com quais comandos ideológicos colabora a imprensa. Março de 2020: O lobbi do atraso dos salários está orquestrado a comandos populistas e massiva campanha publicitária e discurso de mídia especialmente televisão, de marcação preconceituosa da idade das mulheres, ou seja, trata-se de propaganda de prostituição infantil e abusiva estereotipação dos cidadãos. LAVAGEM CEREBRAL CONTRA AS RELAÇÕES SOCIAIS SAUDÁVEIS E O DESENVOLVIMENTO PSÍQUICO. Tipificação de arquétipos idiotas de algum tipo de script burro, tentando ser imposto à sociedade por lavagem cerebral de out doors ou todo tipo de propaganda abusiva QUE VISA PALHAÇADA DE DIFERENCIAÇÕES IDEOLÓGICAS APENAS PARA IMPEDIR A CONSCIÊNCIA DA CIDADANIA DA REPÚBLICA BRASILEIRA JÁ ESTABELECIDA COMO IGUALDADE DE DIREITOS E DEVERES CIVIS PRESCRITOS PELA CONSTITUIÇÃO.
FORA IMBECIL
Este blog denuncia lobbistas que estão tentando obter atraso de salários de funcionários públicos, que são profissionais liberais e intelectuais, para obrigá-los e às esposas donas de casa, a trabalharem no lumpesinato. O OBJETIVO É IMPEDIR A PRODUÇÃO DE TEXTOS COMO ESTE BLOG, PESQUISA AUTÔNOMA ISENTA DE IDEOLOGIA DO PODER UNIVERSITÁRIO SUBMETIDO A BUSINESS DE MÍDIA, MONARQUISMO DE NAZI-FASCISTAS OU QUALQUER OUTRO PODER ABUSIVO. O OBJETIVO DO CRIME CONTRA O SALÁRIO DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS É IMPEDIR A PRODUÇÃO INTELECTUAL DE NÍVEL LETRADO NESTE PAÍS. O OBJETIVO DO CALHORDA, QUE PROVAVELMENTE TEM AGÊNCIA INTERNACIONAL DO IMPERIALISMO NORTE-AMERICANO-EUROPEU-JAPONÊS, NÃO SERÁ SERVIDO. O CALHORDA SERÁ MORTO COMO JÁ AVISAMOS NA PRIMEIRA VEZ QUE OS TEMMER OPERARAM CONTR NÓS, DESTA VEZ ACONTECERÁ O FIM DO(a) FILHO(A) DA PUTA COM TODA CERTEZA.
A televisão como big brother, etc., impinge como comum a imagem dos que tem preconceito com o mero ato de leitura, achincalhando como vagabundagem ao trabalho intelectual ou o trabalho feminino.
A identificação dos lobbistas assim como prisão por assédio moral, discriminação , etc., é urgente, mas sem dúvida são máfias de populistas que atuam por what sapp e sindicatos corruptos. Andam atrás de sujeitos na sociedade para aterrorizar qualquer coisa que façam ou qualquer lugar onde vão.
FORA CRIMINOSO IMBECIL
NÓS TE ESTRIPAREMOS SE OS SALÁRIOS DO RJ ATRASAREM =
queremos pessoas calmas, cultas, bem educadas, bem consigo mesmas, sem paranoia identitária de idade ou sexo ou cor ou classe ou popularidade ou quaisquer tipificação, pois não há diferença de direitos civis
não temos obrigação de populismo algum, nem de receber indivíduos nas casas, etc.
temos obrigação de pagar impostos para que o Estado possa garantir os serviços públicos como educação, segurança, saúde, justiça, previstos na Constituição da República do Brasil. .
o megafavelamento institui a ideologia da isenção do imposto de favelados como se fosse vantagem contra as pessoas idôneas que são tipificadas como bodes expiatórios da pobreza que na verdade apenas se deve a falta de controle de natalidade, de fixação do operariado nas cidades interioranas de onde se originam, dominadas por latifundiários, etc. FORA COVARDE ODIOSO
megafavelamento significa doença social, risco de vida da população.
Ao contráro da papagaiada da esquerda corrupta e da direita de exploração da fé , exigimos acomodação da população em regiões domiciliares regulamentadas e que paguem impostos com empregos para quem precisa, planejamento familiar com controle de natalidade conforme a renda, e que se impeça o êxodo rural .
== este blog armazena notícias de corrupção assim como de abuso à população por parte de instituições de governo ou indivíduos metidos a poderosos assim como contra os metidinhos a "consciência da espécie" contra a autonomia civil dos sujeitos particulares brasileiros. Informando que pesquisa do search internet, google, bing, truncam ou falseiam propositadamente informações quando se solicita por itens específicos, mostrando sites irrelevantes, ou sem sentido relacionado ao assunto - conforme as operações contra a cultura letrada e informação não dirigida ideologicamente por lobbys de mídia que desfavorecem a inteligência e os conhecimentos já existentes, que estão ocorrendo no Brasil desde o início da globalização local em 1997.
Jornal Folha de São Paulo (: não permite copiar automaticamente o conteúdo da reportagem impedindo assim reproduzir e armazenar a citada informação em referenciais de registro e estudos futuros como este blog:) informa que o governo do Estado, Witzel, "renova contrato de transporte alvo da lavajato no RJ", título que na verdade significa que Witzel renovou contrato com a RIOCARD empresa da FETRANSPOR - FEDERAÇÃO DAS EMPRESAS DE ÔNIBUS - "acusada de distribuir 500 milhões de propinas a políticos do Estado", operando de fachada para lavagem de dinheiro: o "RIOCARD foi usado como câmara de compensação de propinas que empresários de ônibus pagavam a políticos".
O atendimento das empresas de ônibus à população carioca estava sendo caótico ao tempo do petismo - os motoristas não paravam nos pontos solicitados pelos passageiros para saltarem do ônibus, mas onde bem entendessem, falavam o tempo todo com amigos ao volante a altos brados, não permitiam senhoras de idade subirem no veículo. Se esses traços calamitosos, que abrangiam ações similares por parte de caixas de supermercado, atendentes de serviços, etc., cessaram desde a eleição de Bolsonaro, inda persistem agora alguns outros como direção calamitosa a alta velocidade com a maior brusquidão propositada ao volante, alem de que ônibus públicos continuam espaço para grupos oportunistas - geralmente de filhos de imigrantes europeus ou que cultivam tal imagem, relacionados como são a turbas populistas -vandalizarem a vida de sujeitos privados. Tais grupos de incivilizados não tem o que fazer, seguem os sujeitos que assediam a qualquer momento do dia em que eles vão a qualquer lugar, para ficarem falando contra eles a altos brados durante a viagem, assim como espionam compras, tentam impedir a livre circulação com ameaças de morte ou outro tipo de assédio vexaminoso nas vias públicas - recomenda-se a quem possa pagar, que contrate seguranças e detetives particulares para deter e investigar a proveniência da ação dos agressores, mas o melhor sendo que existam dossiês sociológicos publicáveis em mercado editorial. O preço da viagem é 4,05 reais o que resulta, se somente um ônibus for necessário para ida e volta ( que geralmente requer mais) a quinta parte do salário mínimo.
= Com a verba da Lavajato ao governo do RJ não ocorreu ainda o desarrocho dos salários dos servidores públicos, pois o governador Witzel utilizando-se do recurso do decreto de "recuperação fiscal" cortou o aumento salarial dos professores estaduais previsto por lei entrar em vigor este mês : a votação na ALERJ para suspensão do veto até agora está indefinida.
O facebook do SEPE RJ Oficial "Em defesa da Educação Pública" veicula a informação: "No dia 18 de março, os profissionais de diversas redes públicas do Rio de Janeiro irão participar da Greve Nacional da Educação Pública. As redes estadual e municipal do Rio, assim como outras redes municipais do interior já aderiram. Outras redes municipais estão realizando assembleias para decidir a sua participação".
Os sites de notícias on line (Exame, globo, r7, Veja) nada informaram a propósito da convocação à greve de 18 de março, o veto de Witzell e a votação sobre o aumento salarial na Assembleia.
Professores públicos são há tempos incentivados pelos politiqueiros de mídia a venderem salgadinhos, etc., assim também como grupos interessados na ignorância - religiosos de mídia ou a própria mídia - incentivam o povo a não ver utilidade e a desprezar ativamente cultivo literário e cultura letrada, como ter preconceito contra as pessoas associadas a estas práticas, assim como força bruta de ignorantes contra quem não obedece ordens de manter o nível da idiotice obediente a grupos de riquinhos ou de populistas. Nas universidades organizam-se lobbys de mídia para impedir que os livros curriculares de português veiculem intertexto letrados (poesia culta historicamente formativa, textos da literatura brasileira, disciplina obrigatória de história da literatura nacional, etc.), para serem monopolizados pelas letras de funk da mídia - cuja indústria cultural censura o "funk" autêntico da periferia, que não se restringe a duas ou três palavras repetidas, mas inversamente são letras complexas que denunciam problemas da violência ou expressam originalidade de perspectivas.
Não obstante a defasagem dos salários aos professores, o governador tenta destinar a verba da lavajato para obras de metrô da zona sul do RJ (Gávea), região rica que absorve a maior assim como a melhor infra-estrutura de transportes da cidade cujas regiões mais vastas são cronicamente desassistidas de qualquer qualidade do transporte, com carência de linhas que cobrem trajetos; poucos veículos por linha, que assim ficam repletos, com gente pendurada às pencas nas portas; atrasos sistemáticos dos veículos; estado deteriorado dos veículos; maus tratos à população, etc.
O sindicado oficial dos professores públicos está legalizado há tempos, porém os planos traçados contra o desenvolvimento intelectual do Brasil abrangem proliferação de propaganda de sindicato não-oficial na Internet, com ostensivo discurso de monopolização do que seria o sindicato da classe por nomes já conhecidos como propagados pela mídia como senha de populismo que se arroga autoridade sobre a população na base de ser "conhecido", "primeira vez", "compadre", etc.
Tais atos ilegais resultaram há três anos atrás, no roubo mais escandaloso do mundo, que a mídia não noticiou, consistindo na inclusão na folha de pagamento , de um desconto de 5% do salário de todos os professores estaduais, para um sindicato falso, não-oficial, designado Sind Serj. O desconto foi portanto autorizado registrar-se pela pagadoria do Estado do RJ, à época do Pezão, na folha de pagamento dos professores públicos. Após o que, a pagadoria do Estado foi privatizada. Por iniciativa dos protestos dos professores, houve cadastramento para receber a devolução do desconto criminoso, devolução que até hoje não foi feita. O sindicato oficial cobra 0,5 %.
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============----- Comunico que não autorizei nenhuma participação de outros na minha conta de internet ou blogspot, computador pessoal, representação de imagem pública, linha telefônica, etc., qualquer destas ações devem ser consideradas criminosas conforme penalidade cabível.
É inteiramente falso que a microsoft garante a privacidade do personal computer ofline ou na internet com o uso do windows atulizado ("10"), de modo que assim a preferência do usuário por programas já comprados seria anulada pela sórdida mas irretorquível razão técnica. Não há nenhuma alteração nas condições de invasão do computador privado por clones, monitoramento clandestino, hakerismo generalisado, pelo windows 10, há apenas, a mais dessa inviabilização da consciência pela impossibilidade de manter o que se escreve ou se configura a salvo de falsificações de terceiros, que se designa "micro-informática" capitalista massificada, sabotagem dos software de internet contra a preferência subjetiva de programas já comprados da microsoft, obrigando o sujeito a usar o windows 10, porque o objetivo é formatar a mente humana numa só ordem ideológica como um script idiota impingido a todos performatizarem como se fossem atores não pagos empregadinhos da agência hollywood. Os governos quaisquer foram reduzidos a office-boys da ditadura do cartel capitalista. Ao menos aqui não festejamos a ditadura do cartel, pelo contrário, denunciamos o seu modus operandi que depende da dominação sobre o terceiro mundo. Não fomos infectados pelo vírus ideológico da dominação info-midiática que trabalha para a reprodução do fascismo tal que a subjetividade teria que ser disponibilizada por "outros" quaisquer por alguma completamente ridícula infantil concepção de sociedade.
A propósito da observação de que não há uma corrupção crônica no Brasil que derivaria da colonização ibérica, é algo óbvio, podendo ser atribuído racismo a tal tese.
Porém quando se argumenta como Avritzer, que os USA no início do século XX eram corruptos mas depois se recuperaram, não ocorre lembrar como foi que isso ocorreu. Mas uma leitura de M. Dobb (A evolução do capitalismo) e conhecimentos de história são úteis aqui, modelarmente instrutivos.
A corrupção generalizada nos USA foi fruto do capitalismo agindo criminosamente de modo proposital - até mesmo utilizando-se do gangsterismo - para burlar leis de proteção à população. O combate aos trusts, carteis, ou formas de monopolismo, pelo Congresso e comissão La Follete, etc., cabendo nos esforços da economia de Keynes como do governo Roosevelt, foi o que limpou o país da corrupção.
Só o combate ao capital monopolista assim como a todas as formas de achincalhe da lei por firmas que se atribuem impunidade pela corrupção do governo, derruba o banditismo institucional, porém o neoliberalismo econômico, radicalmente contrário a Keynes mas fórmula da Globalização, não permite a intervenção do Estado sobre o capital privado. Sem derrubar Friedman, não haverá limpeza das instituições.
O Cade é o referencial da nossa polícia contra o abuso do poder econômico, mas as firmas multinacionais parecem nem ter conhecimento de que ele existe.
= Este blog não autoriza destaque de trecho como modelo de exercício de gramática ou outros para uso de concursos públicos, visto que não há garantia alguma do provedor ou de quem quer que seja que as construções utilizadas não foram sabotadas pelos bandidos de modo a conter erros ou lapsos que eles intrometeram (se houver, o motivo já está exposto), além disso, pode não haver concordância da consciência aqui expressa - em conformidade ao minimamente atual, de total repúdio a linguística prescritiva - com a ideologia do exercício.
Registro aqui as invasões com alterações de conteúdo já verificadas várias vezes em meus blogs na internet e também em textos of line. Ontem (15/3) o, ou um dos, indivíduos que tem clonagem dos meus computadores, manifestou-se fazendo aparecer dezenas de arquivos de textos meus, que estavam em um pen drive, num outro pen drive que eu tinha reservado a um só arquivo.
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O uso do jovem como massa de manobra contra a conscientização e a produção teórico, que implica necessariamente tempo de carreira e pesquisa está sendo denunciado aqui, também alertando aqueles cooptados que isso não lhes irá fazer bem algum, visto que se estão sendo paparicados ao contrário dos maus tratos a que estão expondo as mulheres, não são porém nada mais que massa de manobra, peões num jogo de canalhas, assim como os favelados, e tão logo passem dos dezoito anos vão ser jogados fora porque já não se prestam a sedução dos tolos analfabetizados pelas câmeras e mitos de religiosos corruptos. Além de que nada será feito para tirar as famílias e sobretudo crianças da abjeção do megafavelamento, ao contrário, o ópio propagandístico visa produção de crianças para canalizar o populismo contra o desenvolvimento do país, consumismo da favelada como prostituta, etc. O POLÍTICO QUE ANUNCIA NA INTERNET PROGRAMA DE CANALIZAÇÃO DE VERBA UNICAMENTE PARA CRIANÇAS, COM PROPAGANDA DE GRAVIDEZ = DE MODO QUE QUANDO AS CRIANÇAS CRESCEREM JÁ NÃO TERÃO "VERBA" - DEVE SER PROCESSADO E PRESO.
A CADELA NUMÉro 1 QUE SE ACHA OS ANJINHOS DO CÉU ANDA ARREGANHANDO O FOCINHO CONTRA A CIRCULAÇÃO DOS HONESTOS NA CIDADE PORQUE INTERFERE COM A INDÚSTRIA DA PROSTITUIÇÃO AO MENOS SE DEVERIA TER COMO COIBIR O PANOPTICUM ESCANDALOSO NA NOSSA CASA
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Há muito já está conhecida a aliança do crime organizado com os serviços secretos e governos dos países associados aos USA, com a finalidade de contrafazer a organização social igualitária e democrática após 1945. A aliança das trevas agora está contando com pseudo- esquerdas corruptas, mais todo tipo de lobbi populista orquestrado pelo dinheiro sujo do business de mídia.
Juntem todos os sacripantas num mesmo saco, não importa de que origem díspare saíram.
Joguem o saco dos salafrários no lixo.
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============== Referencio
aqui meus livros publicados pela Quártica Editora (podem ser comprados na
Internet por sites como amazon, estante virtual, lojas americanas e
outros; mas com efeito do valor a meu favor, somente em meu email: "elianecolchete@gmail.com"; todos os volumes tem o mesmo preço, 30 reais):
/// literatura:
"Contos
do Espelho"
"Contos
da Musa Irada"
/// pensamento humano, história da filosofia, História e ciências políticas:
"Filosofia,
Ceticismo, Religião: com um estudo sobre Diógenes Laércio"
"O
Pós-Moderno: poder, linguagem e história";
"Riqueza e Poder: A
Geoegologia"
/// em parceria com Luis Carlos de Morais Junior
"Formação da Filosofia Contemporânea" (curso curricular da matéria das provas vestibulares e disciplina instrumental às faculdades de ciências humanas)
"Laboratório
de Letras" (curso curricular das faculdades de letras e formação
de professores)
literatura
infanto-juvenil: "Y
e os Hippies"
"O
Caminho de Pernambuco"
"Crisopeia"
"Clone
versus Golem"
"O
Portal do Terceiro Milênio".
"O
amor dos dois polvinhos"
poesia
: "Abobrinhas Requintadas – Exquisite
Zucchinis".
Publicações gratuitas: por favor, citar minha autoria e a referência do título se for o caso de utilizar.
/// Sobre
Geoegologia, ver
em You Tube gratuitamente o vídeo da minha palestra de lançamento do livro já
citado, apresentada ao Iserj, Instituto de Educação do RJ, em
agosto 2018 (search: "riqueza e poder: a geoegologia, eliane
colchete"; Também meus blogs na internet, com o mesmo
título):
/// blogs gratuitos : desenvolvimento de vários temas teóricos, poemas e livros literários (pelo search: cem blogs listados em meu nome; mais uma lista atual que não está no search, mas pode ser acessada pelo ícone "perfil completo" deste blog).
/// Em "Issuu": pode ser lido gratuitamente o meu texto "Derrida, Habermas e a Neometafísica" completo. Contem os blogs I, II, III, IV, w "Derrida e a neometafísica"
Também
está publicado em Issuu meu texto literário designado "Femina
& Ismo", incompleto, iniciado em blogspot porém tendo o
provedor - ou o sabotador da conta - impedido a continuação
da postagem.
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